terça-feira, 4 de julho de 2017

Fernando Henrique Cardoso, o presidente globalista.

Eu estou lendo os Diários da Presidência, do Fernando Henrique Cardoso. Considero que FHC foi o único presidente brasileiro tolerável desde o fim da Primeira República. Apesar de todas as críticas que possam ser feitas a ele (e não são poucas, aliás) ele é único que ocupou o posto presidencial em que eu consigo enxergar elementos dignos de elogios.

É interessante estudar e buscar compreender como o PSDB se formou e o espaço que esse partido veio desempenhar na política brasileira no período pós redemocratização. Dentro dos hábitos partidários que temos como tradição, os tucanos carregam diversos vícios, como dar muito peso aos estados do nordeste e ao caciquismo, todavia é o único partido que não pertence a esquerda radical que possui intelectuais capazes de fazer uma leitura histórica, sociológica e econômica do país. Um mérito do primeiro governo Fernando Henrique foi o de estar sempre ouvindo o que importantes intelectuais tinham a dizer e é claro, estes pensadores dialogavam com um comandante que lhes dava ouvidos, que compreendia a profundidade de suas ideias e pensamentos. O PT está cheio de intelectuais (uns bons e respeitáveis - apesar de discordâncias que qualquer um possa ter com eles - e outros nem tão) mas a Marilena Chauí, o Marco Aurélio Garcia, o Márcio Porchmann, ou qualquer nome da academia que venha tratar com o Lula terá que lhe dirigir os temas por parábolas, já que a formação de sua ex-excelência é mais do que sofrível. Eis uma sensível diferença que pode ser colocada entre os governos de FHC e de Lula.

Também creio que não seja fácil colocar sobre as costas de Fernando um peso tão grande como o que hoje Lula carrega, de ter ciência de esquemas de corrupção de proporções monumentais. Sempre vi o Fernando Henrique como uma pessoa um pouco alheia a tudo isso. Sim, eu sei dos escândalos que tivemos durante o seu governo e aqueles que ele foi associado, após deixar a presidência, mas nenhum deles pode sequer estar perto de ser comparado com o assalto patrocinado pelo PT no período em que esteve na presidência, que deu salvo conduto para que todas as demais legendas e grupos políticos instalados no poder se sentissem abonados para realizar acordos espúrios a luz do dia, sabendo que o estado todo estava aparelhado tendo a corrupção como razão principal. Isso não se viu nem no primeiro e nem no segundo mandato (1995-2003). 

FHC sabe que fez um bom governo, dentro daquilo em que ele crê que fosse o correto a se fazer e diante daquilo que o intelectuais que mantém um diálogo liberal-social e social-democrata no Ocidente também creem que seja o correto a ser feito em relação ao governo e administração pública. Esse diálogo do qual o ex-presidente é uma voz muito ativa defende medidas que não concordo: são privatizadores, mas não querem que o mercado seja aberto para ampla concorrência; são liberais radicais (jacobinos) em relação ao entendimento do estado com as religiões (nesse sentido são espiritualmente tão ateus e antirreligiosos quanto o mais vulgar marxismo, embora a maneira como encarem isso não seja sempre tão ostensiva como foi a do comunismo durante o século passado); são radicalmente favoráveis ao entendimento contemporâneo de globalização e divisão internacional do trabalho. Quem lê e conhece os estudos de historiadores independentes sabe que há por trás de todas essas políticas, que de maneira ampla denomioa de política pós contemporânea, há um projeto de um mega estado gerente, em proporções globais, se formando. 

Não tenho nenhuma dúvida de que Fernando Henrique Cardoso é hoje uma das maiores referências internacionais em matéria de globalismo. Ele constroi esse papel de dentro do processo de ação política, de maneira consciente. Com certeza ele não chama o crê de globalismo, mas é consciente do que faz. Em seus governos teve atitudes, sempre paliativas, bastante importantes, como a reforma do estado, uma tendência a descentralização, estabilização econômica. Tudo isso é elogiável, mas temos que sempre levar em consideração que isso que está sendo elogiado por mim é bem visto pelo ex-presidente como sendo coisas positivas por outras razões, pelas razões que fazem de FHC um globalista.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Livro "Emil Cioran, a crítica à ideia de progresso histórico"

Li o livro escrito pelo reverendo luterano Daniel Branco sobre o pensador franco romeno Emil Cioran. Considero o livro uma boa introdução ao pensamento de Cioran.


"Cioran sabe que [...] cada civilização tem dentro de si o desejo de subsistir [...] ser grande como a areia do mar [...] Existe, entretanto, uma parte da realidade que não é lembrada: a decadência, a queda. O que as civilizações chamam de progresso é o seu tempo de colheita, parte da história onde ela ocupa um efêmero trono. Todo reinado, no entanto, acaba. A vida do rei não é eterna. Não existe também herdeiro que o traga de volta a vida. Toda a civilização entrega o seu trono a outra e, não havendo mudanças no ciclo da História, pois todo rei é humano e ocupará o trono somente durante os anos determinados para todo homem viver, dentro de pequenas variáveis, a História vence o intento de qualquer império de 'eterno'. "


domingo, 18 de junho de 2017

Uma telurocracia sul americana

A telurocracia é o poder geopolítico da terra, em predominância sobre o mar. É a força da autossuficiência sobre o comercialismo. Em termos mais modernos, são os países autárquicos (que buscam produzir a maior parte daquilo que consomem) contra a divisão internacional do trabalho (onde cada país produz basicamente aquilo que ele tem como sua especialidade).

A América do Sul possui o Mercosul (Mercado Comum do Sul) como principal espaço geopolítico do sub continente. Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela fazem parte dele. O Paraguai foi suspenso, anos atrás, por ação dos demais países na época participantes, alegando a rutura da institucionalidade paraguaia, embora se saiba que isto é totalmente infundado e só serviu como meio para que a Venezuela fosse inserida no bloco. Hoje o Paraguai já retornou ao Mercosul e a Venezuela em total convulsão social, nas mãos de Nicholas Maduro e Diosdado Cabello não foi suspensa.

Independente de qualquer disputa superficial entre esquerda e direita, a América do Sul deveria buscar fortalecer esse importante bloco comercial, que é o Mercosul, sem, contudo, deixar de reformá-lo, dinamizando-o, tornando-o mais ágil para dar as respostas necessárias no campo político e econômico. Nosso sub continente forma um todo geográfico, uma hinterland poderosa, que pode trazer muitos ganhos para o desenvolvimento de nossos países. Infelizmente tanto a esquerda quanto a direita dos países sul americanos não conseguem enxergar isso na sua devida dimensão, ficando amarrados em discussões verbais de baixo conteúdo substancial.

Uma integração geográfica foi o que os nossos países fizeram durante os anos 1960 e 1980, quando foram governados por regimes militares, mais cientes da necessidade de um real integração espacial da América do Sul. Não, isto não é um plano comunista nem uma ação neoliberal! A integração em um bloco comercial forte, que busque, prioritariamente, dentro de uma perspectiva de especialização e divisão do trabalho restrita ao espaço sul americano, fortalecer nossas economias, eliminando entraves e utilizando um mercado consumidor de mais de 400 milhões de pessoas para poder dinamizar nossas economias, reduzindo a dependência de grandes potências, como Estados Unidos, União Europeia e Rússia.

No Brasil sempre se refere a uma "síndrome de cachorro vira-lata". Penso que seria mais adequado expandir essa síndrome para praticamente toda a América Latina, que não consegue reunir forças sociais e políticas para poder criar uma civilização nova, embora tenha um enorme potencial para isso, tanto físico quanto humano. Poderíamos ser uma potência econômica e militar, autônoma dos problemas que tanto envolvem hoje o mundo e as grandes forças geopolíticas, com um poder telúrico, voltado para o comércio no mercado interno da América do Sul, mas nossas elites locais estão muito confortáveis com a subordinação e a venda de comodities de baixo valor agregado para os países industrializados. Como dizem os argentinos: cabeça de rato a cauda de leão. Poderiam ser tigres, mas serão sempre ratos.

sábado, 10 de junho de 2017

Uma reforma do Brasil não é suficiente

Desde a independência, ou seja, do nascimento do Brasil como país, diversas discussões tomaram conta do diálogo nacional, empreendido pelas chamadas classes falantes.

Nossas elites já debateram sobre a escravidão, sobre monarquia e república, sobre o estado laico e confessional, sobre a repartição dos poderes e sobre a organização da divisão do estado brasileiro. Sempre se discute e se chega a alguma conclusão, cujo resultado não costuma apresentar mudanças profundas nas velhas estruturas do país.

Reputo a proclamação da república como o maior fato da história do Brasil país. A perspectiva que se abriu com o fim da monarquia foi a de que alguma mudança real poderia vir a ser empreendida. Não que essas mudanças realmente acontecessem, mas com a mudança da forma de governo uma abertura ocorria para que mais transformações pudessem ocorrer.

Bons tempos aqueles do fim do século XIX onde os cafeicultores Paulistas, os estancieiros gaúchos e os militares discutiam sobre a forma de governo do país e também sobre a melhor forma de estado.

Vejo que o debate que falta ser levado, no mesmo ritmo, na mesma toada que era feito na época em que a república foi proclamada, é a respeito da forma de estado no Brasil. Vivemos um modelo de federalismo absolutamente truncado, cuja base da pirâmide está invertida e o poder total concentrado no poder central.

A reformatação do país é a mãe de todas as reformas e a única que seria capaz de parir um ciclo longevo de estabilidade. Dizer que o Brasil de hoje não é federalista me parece equivocado. Temos um tipo peculiar de federação, misto de modelos copiados de alhures. Não nos basta. Precisamos de um federalismo liberal de tipo americano, na pior da hipóteses, ou de uma confederação no mais ideal dos cenários.

Descentralizar totalmente o poder político e econômico. Dar peso e significado real à palavra cidadania, como verdadeira participação do indivíduo das decisões importantes de sua terra. 

O Brasil é um país plurinacional e não há saída para que ele se mantenha unido a não ser que se dê liberdade plena para que as nações que o constituem possam, cada uma, de maneira democrática, definir qual é o melhor rumo que deva seguir. Cada estado uma nação e cada nação uma solução. As reformas que emperram hoje o desenvolvimento dessa grande América Portuguesa só podem ser feitas no âmbito dos estados. Brasília é incapaz de conduzir reformas que sejam agradáveis a todos. Primeiro se reformata o país e a seguir parte-se para as reformas, uma a uma, como se faz com os cômodos de uma grande casa.

O intelectual petista

Não sei dimensionar qual é o papel profundo que a intelectualidade presente dentro do Partido dos Trabalhadores realmente representa para essa instituição e para o debate público nacional. Não consigo compreender como um partido como esse tem nomes como Fernando Haddad, Marco Aurélio Garcia e os finados Antônio Cândido, Florestan Fernandes, Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, pode conviver com a liderança de um enganador mór, como é Lula. O ex-presidente tem a lábia de um caixeiro viajante ou de um corretor de imóveis. Despreza deliberadamente o conhecimento em favor da esperteza. Lula é uma perfeita encarnação de um líder político cuja ideologia é a brasileiríssima "Lei de Gerson".

Haddad escreveu um textão na Revista Piauí sobre sua gestão a frente da prefeitura de São Paulo e analisando a situação do país desde 2012 até o presente momento. Eu ressalto dois pontos. Em primeiro lugar ele consegue falar abertamente como o PT, especialmente Dilma e Lula se mostram como inimigos dos Paulistas, por agirem com preconceito (da parte de Lula) ao achar que São Paulo não precisa de mais serviços públicos e com desprezo total (vindo de Dilma) ao perguntar ao prefeito o que São Paulo poderia fazer ao governo federal, como se a cidade fosse serviçal da burocracia brasiliense.

Mesmo vendo essa humilhante situação e sendo representante de mais de 10 milhões de pessoas, na figura de alcaide paulistano, Haddad resignou-se à fidelidade partidária e ideológica do projeto de poder petista. Saiu chorando de Brasília sabendo que São Paulo estava sendo lesada pelo governo de dona Dilma, mas nada fez para mudar isso. Omitiu-se. Ainda hoje não mostra arrependimento de sua ação pusilânime.

Contudo, o ex-prefeito me parece bastante lúcido ao buscar interpretar a conjuntura que hoje vem passando o Brasil, enxergando, mais uma vez, uma crise do estado patrimonial brasileiro e mostrando, puxando como inspiração a interpretação dos founding fathers americanos de que democracia não é sinônimo de república e que esta primeira pode muito facilmente degenerar-se em tirania se não for acompanhada de seu par institucional.

Leiam o texto de Haddad. Apesar de todos os senões e óbices que eu possa colocar o que posso dizer é que me pareceu um relato honesto do que realmente o filisteu prefeito pensa.

domingo, 14 de maio de 2017

A Lava Jato e o messianismo

Acompanhar as conversas de muita gente nas redes sociais é um exercício que tem exigido muita paciência. No Twitter praticamente todos aqueles que se identificam de uma maneira ou outra com alguma coisa que pode ser considerada de direita, passam o dia todo a louvar e a torcer pela operação Lava Jato e pelo juiz Sérgio Moro, como quem reza uma ladainha em favor de um parente morto.

Além da torcida infindável, outro comportamento que observo, que, aliás, é a base para tudo isso, está na fé que o brasileiro tem na justiça, esperando que ela, com seus paladinos, consiga afastar do poder todos os corruptos que estupram o bom senso nesse país.

Não há consciência de sistema nesse país. Sim, de sistema. O brasileiro não consegue entender o que é o Estado de Direito, com as suas instituições, devido processo legal, garantias fundamentais, recursos, normas de processo penal e civil. Exceto os bons juristas, ninguém compreende a densidade disso tudo. Diante disso, a sensação que se tem é de que a justiça vai ser sempre rápida e fatal em lidar com aqueles que estão sendo investigados. Pra que processo, para que investigações, oitivas, depoimentos, pra que, afinal, toda esta infinidade de etapas, que atrasam aquilo que todo mundo sabe, que políticos são ladrões e devem apodrecer na cadeia?

Se não há consciência do que é um sistema e do que é um processo, de forma igual também se vê perpetuar por aqui a crença messiânica em quem possa libertar o país de seus males. A saída do Brasil virá de um grande homem, de um vingador, de um libertador. As instituições tem um papel mais do que secundário nessa mentalidade ou não tem, sequer, papel algum. A lei é um palavrório de sentido incerto, quando o que vale é a capacidade que o paladino e defensor mór de todos tem para defender a nós. É o festival do senso comum, no pior sentido que essa expressão possa ter.

Um dia os brasileiros simples viram nos seus grandes líderes políticos os seus salvadores: Pedro II, Getúlio Vargas, Jânio Quadros, João Goulart, Lula. Hoje, o povo espera da justiça que Sérgio Moro (assim como Joaquim Barbosa foi durante o Mensalão) seja aquele, que erguendo a espada e o escudo defenda os mais frágeis, liberte o país da roubalheira e coloque o eterno país do futuro nos trilhos. Sinto dizer que isso é pura bobagem. A Lava Jato é uma aspirina num corpo canceroso.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Em defesa do armamentismo




A cada dia que passa eu me torno ainda mais convicto sobre o armamentismo. Acima de tudo por um imperativo moral: um homem deve se defender sem depender do estado e, normalmente, se defender do próprio estado. Defender sua vida, sua honra e sua propriedade.

Não sei vocês, mas acho curioso, tão mal se fala das forças de segurança pública, e ainda assim se confia nelas. Eu não, prefiro uma outra opção...


Leitura: História da URSS


Tem já um certo tempo que eu busco ler mais a respeito da Revolução Russa e da História Russa, em geral, mas, em particular, da História do período soviético. Reputo e considero que a Revolução de 1917 foi o fato de maior importância de todo o século XX e o fim da URSS em 1990 como o fim da História Contemporânea.

Esta edição dos anos 60 do francês Jean Bruhat é uma introdução ao estudo da Rússia Soviética, até o período de sua publicação (o último fato de vulto narrado no opúsculo foi a Corrida Espacial). Não penso que hoje ela pudesse ser indicada para qualquer leigo que quisesse conhecer mais a respeito dos soviéticos. É uma obra marcada por sua época, de caráter descritivo, sem, contudo, deixar de se manchar pelo marxismo francês do autor.

Sobre Jean Bruhat, aliás, temos as seguintes informações.


Nasceu no ano de 1905 e morreu em 1983. Foi um historiador marxista especializado no estudo do movimento operário. Em Paris se filia ao Partido Comunista e adere à militância, sem se desmobilizar do ensino e da produção de obras acadêmicas. (Fonte)

Fato que não posso deixar de dar destaque em História da URSS é que, mesmo falando abertamente sobre o governo Khrushchov, não há, praticamente, nenhuma linha sobre as revisões programáticas feitas pelo PCUS nesse período e também nada é dito sobre os milhões de mortos da época Stalinista, mantendo como única crítica sobre esse período o excessivo personalismo feito sobre a figura de Stalin.

A não ser que você seja um historiador ou interessado em conhecer e compreender as narrativas feitas sobre a União Soviética ao longo da História, este livro terá pouca utilidade para entender realmente a história desse que foi o maior marco geopolítico de todo o século XX.

domingo, 23 de abril de 2017

A fé socialista e a decadência moderna

Estou muito impressionado com o livro Uma Nova Idade Média, do russo Nikolai Berdiaev.

A sua capacidade descritiva dos problemas mais profundos da sociedade ocidental moderna é impressionante. A atribuição dos males do mundo contemporâneo à degeneração do espírito renascentista para o humanismo é certeira. O liberalismo e o socialismo são dois fenômenos que somente podem existir por esse passado que se inicia no renascimento, passa pela reforma, pelo iluminismo e decaí para o humanismo, onde, na raiz disto tudo, se encontra a revolta do homem contra Deus, querendo aí eliminar a verdade divina da vida humana, em particular da esfera pública. Quando se elimina Deus da história alguém vai assumir o papel de protagonista e claro é que será o homem. 

Ele aponta também o problema do liberalismo e mostra por que o socialismo triunfa sobre esta primeira posição ideológica.

Os liberais vão ver no homem um átomo, completamente desligado dos demais átomos, sem guardar com eles nenhuma relação, colocando como verdade única o direito do indivíduo a escolher, dentro do processo democrático. Ausente de verdade há total ausência de valor, logo, concluo, a democracia burguesa é, por excelência, a democracia do ateísmo, pois exclui Aquele que é a essência de todos os positivos valores.

O socialismo, contudo, constrói uma espécie de confissão, onde os elementos presentes em sua narrativa ocupam papéis que outrora se encontravam no judaísmo e no cristianismo. Israel não mais é a nação eleita, que agora é o proletariado. Deus não é mais Deus, mas a História. O paraíso, tal como para os Testemunhas de Jeová, se dará aqui na Terra, quando o povo eleito estiver preparado para tal. O socialismo, por não ser democrático, constitui uma fé, baseada em uma verdade, logo, mais forte e resistente aos tropeços do que a democracia, em última instância. Os socialistas viram que para ter o poder este precisava ter como fonte uma autoridade superior, um deus, que desse legitimação ao exercício do poder pelo partido.

Digo que a liberdade do povo deveria ser limitada, pois é essa liberdade completamente ausente de verdades que dá ao indivíduo atomizado a autonomia para negar tudo o que é bom, tudo o que é reto, tudo o que é justo e tudo o que vem do bom senso. A democracia conduz ao socialismo e o socialismo é a negação da próprio regime democrático.

Também destaco outra ideia, que ao analisar a revolução, enquanto fenômeno tipicamente moderno, Berdiaev nos diz e alenta, que aquilo que se perde com o fervor da ação revolucionária é apenas a espuma das estruturas, o que não é eterno, mas aquilo que é efêmero. Tudo o de perene que possa ter sido perdido, pode, também, ser recuperado, pois é uma verdade e, como tal, mesmo que negada não pode ser destruída.

Há, portanto, um clamor para que um retorno de Deus ao Estado aconteça. A saída para a decadência generalizada do mundo é substituir o paganismo instaurado na modernidade pela autêntica fé Cristã, enxergando no modelo de fins da Antiguidade (decadência da Roma pagã) e início da Idade Média (época Cristã regeneradora do espírito do homem dentro da linha do tempo da história - não falo aqui da regeneração da Graça que cai individualmente sobre cada eleito) um caminho para fazer com que o Ocidente confesse seus pecados, arrependa-se de seus erros e volte a estar abrigado, em uma comunhão orgânica, sobre o poder regenerador do Todo Poderoso.

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domingo, 16 de abril de 2017

Mais um passo para o fim do mundo: o retorno do Império Turco Otomano

No último texto que apresentei neste blog falei a respeito da Guerra da Síria e de quem são os interessados reais em ver esse país sumir do mapa.

Eu já havia mostrado que a Turquia é um agente que tem o seu verdadeiro papel nesse conflito e no Oriente Médio minimizado. Fala-se sempre em um primeiro momento da disputa entre Estados Unidos e Rússia na região e, logo após, de Irã e de Israel, também inimigos, tendo os persas o auxílio russo e os judeus a ajuda norte-americana.

Mas e a Turquia, aquele país que foi por décadas a única democracia islâmica verdadeira? Quais as suas ambições?

Voltemos cem anos no tempo. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, os velhos impérios tiveram sua crise final: Império Alemão virou a República de Weimar, o Império Russo virou União Soviética (em 1922), o Império Austro-Húngaro se dividiu e o Império Turco Otomano virou a Turquia e perdeu outros territórios que estavam sobre o seu controle.

Os turcos foram os grandes inimigos da Europa cristã durante muito tempo, mas, na altura da Primeira Guerra Mundial, os velhos rancores foram esquecidos por parte de alemães e austro-húngaros que agora estavão unidos na Aliança para vencer a Entente nesse conflito. Turcos, Alemães e Austro-Húngaros tinham dois inimigos preferenciais do outro lado: A Rússia e a Inglaterra.

Turquia e Rússia são dois estados historicamente beligerantes. A tradição ortodoxa russa narra que o país dos czares é o herdeiro legítimo da tradição do Império Bizantino e que, em um dia no futuro da História, os moscovitas irão partir em uma Cruzada para reconquistar Bizâncio e depois Jerusalém. Pode se pensar que isso é apenas um vestígio de um pensamento medieval, mas não podemos e nem devemos diminuir a influência que a Igreja Ortodoxa tem sobre a mentalidade de Vladimir Putin.

Notícia fresca deste domingo aponta que Recep Tayyp Erdogan venceu o plebiscito onde a população turca foi consultada se queria abolir ou não o parlamentarismo. Com essa vitória, legalmente, ele poderá se manter no poder até 2029.

Erdogan é, como todo tirano sábio, um pragmático. Tem muita cautela em suas ações e sabe aproveitar o timing para impor as mudanças necessárias para aumentar o seu poder. Ao passo que mantém uma política econômica austera, defende uma ação geopolítica ativa e expansionista. O atual presidente turco é a encarnação daquilo que é chamado de neo-otomanismo, doutrina que defende um amplo protagonismo da Turquia em áreas que pertenceram no passado ao Império Turco Otomano, como o norte da África, Bálcãs e Cáucaso.

O sonho turco é reaver essa áreas, recriando o velho império Otomano, destruindo todo o secularismo e o republicanismo da República Turca, criada por Attaturk.

Na perspectiva turca, os estados que existem hoje na região como Líbano, Síria, Iraque, Jordânia devem deixar de existir e são os alvos preferenciais das investidas de Erdogan. Num segundo momento o Irã deverá também ser alvo do interesse turco.

Por que a Síria é tão importante para Moscou?

A Europa é dependente hoje do gás natural que os russos vendem. Há um interesse mútuo e a economia russa, sobretudo, é hoje dependente das vendas desse gás para o velho continente. Existem, contudo, alternativas sendo cogitadas para poder dar aos países europeus novos fornecedores dessa comodite tão importante e uma delas é trazer gás diretamente do Iraque, com um gasoduto passando pela Síria. Evidentemente a Rússia não apoia isso.

Assad é contra a passagem de gasoduto europeu-iraquiano pelo seu território e, enquanto estiver no poder, não há perspectiva de mudança nesse cenário, o que mantém a Europa quase como refém energética dos russos.

Erdogan

A Turquia tem uma perspectiva política europeia. Espera ganhar economicamente com o comércio de gás natural e pode dar a solução que a Europa quer, tirando a Síria e Assad do caminho. O que os turcos querem na verdade é agregar a quase totalidade do território sírio. Ganharia nisso a Europa e a Turquia, mas perdem a Rússia e Israel, que não pode tolerar uma ação expansionista de qualquer território na região (isso por que o movimento sionista tem o seu próprio projeto de expansão imperialista, o Eretz Israel).

Erdogan será um novo sultão? Isso a história brevemente confirmará ou desmentirá, mas que essea perspectiva narrada aponta para um futuro tenebroso é algo que não pode ser negado. Podemos é apenas torcer para que as forças de Assad e da Rússia consigam varrer o radicalismo islâmico e que a Síria possa se reconstruir e se fortalecer como estado nacional tampão, capaz de frear o expansionismo otomano e hebreu.

Verdade turca: quando você, democraticamente, remove a democracia do seu país.


Grosser Gott wir loben Dich