sábado, 7 de fevereiro de 2026

Curtas

Getúlio permaneceu no poder por 19 anos (1930-1945 e 1950-1954). O Lula pode encaminhar, na sequência, mais um mandato e fechar sua carreira com 16 anos de presidência. É claro que o Barba vai se comparar com o Caudilho. Na verdade, ele o imita. Mas, a bem da verdade, a Dilma do Getúlio, que foi Juscelino, foi muito mais competente. 

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"A coesão nacional é um fator inseparável da liderança, as maiorias e minorias nacionais se perderão nos desvãos sectários da polêmica estéril e a nação se desencontrará de seu destino. Sem liderança não haverá objetivo, não haverá convergência, não poderá haver força, potência." 

(General Carlos de Meira Mattos) (1975: 102) 

Hoje, General, felizmente, continuamos sem liderança, o que muito me alegra, pois, possibilita que os ânimos separatistas possam continuar em efervescência. No breve e não distante período em que tivemos um presidente militar, um "mito" nasceu e arrebatou o coração de um milhão de pessoas. É mister que não surjam novos mitos para o Brasil, antes que nasçam 27 mitos para as Pátrias Estaduais.

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'General J. B. Gordon at Gettysburg' by Don Troiani

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A Moóca tem um soft power imenso. Não me ocorre outro bairro paulistano que pareça emanar tanta poesia, talvez o Brás, que no fundo é a mesma coisa que a Moóca. Os Alcântaras Machado de hoje precisam cantar novos velhos bairros. Um Jabaquara, um Brooklin, um Planalto Paulista.

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De mais a mais, São Paulo é um mundo especial, zeloso e de boas obras para cronistas. Ou ainda é, enquanto os condomínios sem alma não forem reis totais da paisagem. A tristeza que é ver bairros, como a Vila Mariana, para citar só um exemplo, que se verticaliza não em terrenos vazios ou que outrora tenham sido ocupados por fábricas, mas, no lugar de várias casas e sobradinhos. Não é nostalgia. É estilo de cidade que está sendo feito. São Paulo adora o soterramento. Já foi demolida e reconstruída muitas vezes e assim permanece esse movimento. Mas, nada como o condomínio alterou tanto a realidade como hoje.

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Afora o tempo de criança, quando era passeio da escola pública ir ao cinema, fui poucas vezes ver algum filme. O último que vi foi o Coringa, no cine do Shopping Boa Vista. O Google me informa que isso foi em 2019. Dois anos antes, no cine do então recém inaugurado Shopping Morumbi Town, vi O destino de uma nação -- filme que achei ótimo. Voltando mais no tempo, fui em 2010, com a rapaziada da faculdade ver algum blockbuster no Shopping D. Ou seja, fui só três vezes no cinema nos últimos 16 anos. Li ontem que o Playarte do Ibirapuera será fechado. Eu mesmo nem lembrava que ali tinha cinema. As pessoas não querem mais ir ao cinema, com a facilidade das tvs enormes de LCD em casa, com o streaming e com o custo. O estacionamento é no mínimo vinte cruzeiros. Um refrigerante de máquina e uma pipoca murcha com corante cinquentinha. Fora o ingresso. É um passeio custoso. Exceto se você usar o espaço para namorar, não vejo sentido em ir ao cinema. E, na mesma linha do Apóstolo São Paulo, vou seguindo aqui sem ter razões de ir ao cinema. 

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Vi, ou li, o Olavo certa vez falar que ele misturava Aristóteles com Alborghetti. Apesar de ter sido influenciado por ele na formação intelectual (muito menos do que qualquer olavete por aí, eis o porque eu não me considero um olavete, ainda mais por ter sido um dos que ele espinafrou no Facebook alguma vez), creio que eu esteja enquadrado no mesmo estilo. É comum que eu cite um exemplo rebuscado e erudito na mesma frase em que cito um dito popular ou uma escrotidão do Programa do Ratinho. O popular de verdade é algo que não se pode de nós separar. É a alma dos velhos, é um passadismo, é um repositório de bom senso e choque perante a casta dos engomadinhos morais e estéticos. E aquele que se nega o direito de ser popular encolhe também o seu repertório, reduz a sua comunicação. Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas!










sábado, 15 de novembro de 2025

O salário do pecado é a morte.

Nós, como sociedade, jamais deveríamos admitir que uma Erika Hilton ou aquele outro travecão lá de Minas Gerais (Duda Salabert) estivessem na política, pudessem disputar eleições ou sequer fossem admitidos em um partido. É gente que devia ser proscrita de qualquer tema. Um sujeito como esses é louco. Permitir que pessoas assim (e loucos menos exóticos, também) nos governem é sinal de que somos uma sociedade também de malucos ou pessoas ignorantes (pessoas que ignoram o poder político, deixando-o nas mãos dessa choldra).

A gente se emputece com os nossos direitistas e aí começa a ver alguma coisa coerente num tipo à esquerda, sei lá, num Aldo Rebelo (mas, poderia ser no Fernando Henrique Cardoso). Aí você volta à realidade de que a esquerda é manifestação política do poder de Satanás. É a ideologia da iniquidade. Com a esquerda não há diálogo.

Jamais deveríamos discutir absurdos como adoção gay, cirurgia de redesignação para crianças ou qualquer pauta lgbt. Temos que voltar para temas sérios, que hoje tratam como sepultados. Eu sou contra a lei do divórcio, por exemplo. Voltemos aos anos 40. O divórcio deveria ser admitido em termos muito específicos, como grave e reiterada violência e como o adultério. Fora isso, é um pecado contra Deus que uniu o casal. 

Tudo o que atenta contra a família é obra do adversário. Tudo aquilo que atenta contra o corpo humano também é obra do adversário. Ele quer a todo custo corromper a natureza da morada do Espírito Santo. Nisso incluo tatuagens (no sentido ordinário, comum e contemporâneo), uso de brincos, mutilações (como alargadores, mudança de sexo) e a perversão da própria imagem do indivíduo, quando ele incessantemente busca aparentar ser quem não, como os cosplayers -- a versão mais radical do fenômeno ou de pessoas que inspirem sua aparência totalmente nas modas e modismos. 

Como não notar que aquelas meninas, que entram normais num primeiro semestre de universidade pública, se transformam em manifestações demoníacas de pleno direito ao meio do curso?

Que Deus jamais me faça a esquecer a verdade testamentária: o salário do pecado é a morte.

Alon Confino: um mundo sem judeus. Breve resenha.

 Alon Confino me parece querer situar seu livro em uma história da percepção ou dos sentimentos, de como a sociedade alemã percebeu o fenômeno da perseguição aos judeus. Destaco que o autor normalmente utiliza em conjunto as palavras nazistas, alemães e cristãos em conjunto, procurando evidenciar que na sua perspectiva essas três dimensões da sociedade alemã são corresponsáveis pela elaboração de uma possibilidade de extermínio dos judeus na Europa e do apagar da história judaica. Ele situa o holocausto em contexto de outros genocídios, negando colocar esse evento em separado de outras mortandades étnicas ou religiosas, como o caso dos armênios ou de Ruanda. Porém, destaca que os nazistas viram a chance de eliminar o próprio demônio, pois, era assim que o nacional socialismo enxergou o seu inimigo. Ao contrário do liberalismo, cujo inimigo é a tirania, do marxismo, que enfrenta a sociedade de classes, do freudismo, que coloca o mal dentro do próprio indivíduo, o nacional socialismo identificou o mal objetivamente em um grupo étnico que desde o início da história procurou escravizar os arianos, razão pela qual os alemães deveriam extinguir os judeus da Europa. O judeu era a manifestação do mal. É o livro mal traduzido (tem erros claros) e o original talvez seja tão confuso quanto a versão traduzida, o que não impossibilita o leitor de compreender a tese de Confino. 


sábado, 4 de outubro de 2025

O imaginário pós nazista

Em 1945, com o avanço de tropas aliadas sobre a Alemanha, chegava ao fim o teatro ocidental da Segunda Guerra Mundial. Os soviéticos por um flanco e os demais membros da coalizão aliada por outro. Até o Brasil participou desse processo, embora tenhamos ficado mais ao sul, não chegando na hora mais escura em Berlim. 

30 de abril daquele ano é a data mais importante, não pelo fim em si das hostilidades, mas, pelo fim da vida de Adolf Hitler, cuja morte se registra nesse dia, ainda que muitos insistam na hipótese de que ele não tenha se matado e tenha fugido. Não conheci pessoa que estudasse ou acompanhasse o tema a sério que levasse em consideração a hipótese de que o führer tenha saído com vida de Berlim. É uma hipótese que não combina com a ideia de um final heróico. É ideia de um Hitler fraco, covarde e que, mais importante ainda, não se apoia nas evidências históricas.

Oitenta anos depois e o nazismo e a vida de Hitler ainda são assuntos de momento, palpitantes. 

Quando o assunto aparece em um noticiário é como se a ameaça nazista estivesse tão viva como em 1933, ano em que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães subiu ao poder, na República de Weimar. 

São comuns reportagens mostrando alguma pessoa, normalmente um colecionador de itens históricos relacionados à Segunda Guerra Mundial, detido pela polícia, que reúne os objetos e "monta a cena", ou seja, os dispõe de maneira a dar a impressão ao telespectador de que se trata de alguém perigoso, à margem da sociedade, um homem da paleolítica que foi pego, um perigo iminente que rondava a sociedade livre. Sim, sempre um homem perigoso com uma machadinha de cortar bifes, uma bandeira, umas fotos e meia dúzia de livros. Enquanto isso, a onipresença de prisões de bandidos, ligados ou não às facções criminosas que co-controlam este país não chocam mais quando aparecem na imprensa. Uma prisão de meia tonelada de drogas, armas de grosso calibre, explosivos ou o estouro de um cativeiro chamam muito menos a atenção da imprensa do que alguém que é detido por uma investigação de algum crime de opinião ou de ter memorabília militar do período nazista. Qualquer alusão ao nazismo é pior do que qualquer outro delito. Não a toa dizem que nas cadeias, quando um skinhead é preso, ele fica em um pavilhão que reúne criminosos considerado irrecuperáveis pela própria bandidagem, como parricidas, pedófilos e outros psicopatas. 

Porém, via de regra, para chegar até a cadeia é preciso ter o fato criminoso, que, normalmente não existe nesses casos mostrados na TV. A imprensa se alimenta da atenção que o público dá à essa temática. Ser nazista no Brasil é um crime que está assentado na lei 7.716/1989, que traz a seguinte ideia: que é crime praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa – ou reclusão de dois a cinco anos e multa se o crime foi cometido em publicações ou meios de comunicação social. Diz ainda a legislação: que fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

Ou seja, nós, os historiadores estamos resguardados em nossos propósitos investigativos e de estudo do tema. Nossa finalidade não é a divulgação política do assunto, mas a discussão intelectual e acadêmica sobre a questão, amparados na liberdade de expressão, esse princípio tão humilhada, abatido e maltratado no Brasil, que ainda resiste em permanecer na legislação nacional. 

Foto mostra como uma cena é montada pela polícia para a imprensa. O que vemos? Umas facas, como milhões de brasileiros têm em casa, umas cordas e um livro que oficialmente não tem sua publicação vedada no Brasil, desde que seja para finalidades de estudo. Esse caso específico é dessa semana no estado do Mato Grosso.

Não tenho acesso à dados e nem sei se eles existem disponíveis, mas, seria capaz de apostar que a maior parte dos crimes de racismo registrados no Brasil não passa nem perto de qualquer relação com o tema histórico do nazismo. O Brasil é um país de aberto conflito racial. Por mais que pensadores tenham teorizado sobre como o país lidou em sua história com o melting pot de nativos americanos, brancos e africanos, teoria nenhuma pode suplantar a realidade. E a realidade é a violência e o conflito, onde uma raça foi conquistadora e dominadora e assimilou uma outra, a dos indígenas, que foram em um certo momento escravizados e depois reduzidos à servidão ou ainda isolados, como parte deles se encontra hoje. A raça branca ainda trouxe para a América os negros de África, comprados naquele continente onde já eram escravizados de seus patrícios, inclusive escravizados por muçulmanos naquele continente, matéria já fartamente debatida e registrada. O tráfico negreiro transatlântico, controlado por mercadores judeus e conversos é outra marca desse processo. A única assimilação que o ocorreu, e é estupidez negar, é aquele da cobiça: o sexo entre brancos e negros ou indígenas gerou uma massa de gente parda, que pode ter se diluído mais ainda com outros brancos, sobretudo após o século XIX e terem "embranquecido". De qualquer forma, o hoje registra o racismo entre negros e brancos, ou seja, há conflito racial no Brasil. Esse conflito não passa pelo tema ou pela discussão do nazismo. 

A maneira como sempre querem associar racismo ao nazismo, ainda quando o nacional socialismo é um aspecto marginal, colateral, chama a minha atenção. Considero que isso é uma estratégia da imprensa para obter impacto de audiência. Estivéssemos nos tempos em que a imprensa escrita em papel ainda era relevante eu diria que isso é feito para vender jornal ou revista. Hoje é para conquistar engajamento ou views. A imprensa não trata o tema do nacional socialismo de outra forma senão de maneira sensacionalista. Aqui no Brasil ou em outros países, especialmente nos Estados Unidos, há uma eterna exposição de sobreviventes de campos de concentração. O historiador americano judeu Norman Finkelstein já criticou essa super exposição como algo mercadológico, como mais uma atração para o cinema de Hollywood ou para a imprensa, que obtém bons índices quando exploram essa temática. Filmes sobre o nazismo ou sobre campos de concentração chamam a atenção do público e vendem ingressos e publicações. É uma questão comercial, ao fim e ao cabo, essa super exploração. A imprensa não parece se preocupar da mesma forma com temas históricos violentos semelhantes, como os relacionados a outras guerras do século XX. Nada é tão paradigmático para a imprensa comercial ou para a mídia contemporânea como a Segunda Guerra Mundial. Tenho a impressão que uma reportagem na imprensa brasileira sobre nossas revoluções, verdadeiros conflitos cívico militares, como o Golpe de 1930, a Revolução de 1932, o 31 de março de 1964 ou mesmo a própria participação brasileira na Segunda Guerra Mundial chamam tanto a atenção da imprensa quanto os temas ligados diretamente à Adolf Hitler, o nazismo ou a morte de judeus na guerra. A participação brasileira no conflito chama atenção da comunidade de entusiastas do meio militar, historiadores, descendentes de veteranos da guerra, mas para a imprensa é como se fosse uma história a parte. Tenho a impressão que a imprensa brasileira acha que a FEB não lutou contra o Eixo. Que a relevante participação brasileira não teve importância. Nos importamos com filmes como O resgate do soldado Ryan ou Pearl Harbor, histórias relacionadas com o lado americano que participou na Europa. Não temos histórias interessantes ao público para serem contadas que envolvam a soldadesca brasileira que lutou na Europa? A imprensa brasileira acha que não. 

A imprensa e a educação escolar, que andam juntas de mãos dadas em todo o processo de formação intelectual da sociedade ocidental contemporânea, são as responsáveis por fermentar o imaginário popular, passados exatos oitenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial. O tema do nazismo e de Hitler vende bem. É como falar de filmes de super heróis ou como falar de histórias épicas da Bíblia. É um assunto comercial. A imprensa mantém viva a apreensão sobre o tema como uma maneira de criar um clima propício para vender mais: ingressos para o cinema, assinaturas de plataformas de streaming, livros e revistas. No Brasil, revistas de temáticas históricas que tinham apelo popular e eram facilmente encontradas nas bancas eram aquelas que falavam de dois assuntos: maçonaria e nazismo. As abordagens sempre são de teor conspiratório. Aquele que lê buscava ali descobrir segredos dos poderosos. Nazistas e maçons são vistos como grupos poderosos que tramavam por mais poder, sempre agindo pelas sombras. Até hoje se você for em bancas de jornais e revistas que ainda subsistem, provavelmente encontrará publicações sobre esses dois temas. É o que vende. É o que o público está interessado. Ao contrário do nazismo, a maçonaria representa um interesse mais profundo, pois é assunto que raramente é abordado pela imprensa, ao mesmo tempo em que há mais lojas maçônicas no Brasil do que templos da Igreja Universal do Reino de Deus. 

Se as bancas de jornais, espécies em extinção, junto com as livrarias físicas, não tem mais muitas vendas de revistas sensacionalistas de divulgação histórica, a venda de livros sobre o nacional socialismo e Hitler continuam sendo relevantes. Sempre se pode encontrar novas publicações sobre o tema. Normalmente autores internacionais em traduções. Este ano li dois livros recentemente publicados no Brasil sobre o tema. O primeiro é Os monstros de Hitler (Editora Zahar, 2025), do historiador alemão Eric Kurlander. O segundo é Conspirações sobre Hitler: o Terceiro Reich e a imaginação paranóica (Editora Crítica, 2022), de Richard J. Evans, um já consagrado autor de livros sobre o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. Tenho mais outros três para ler que tratam desses temas do nazismo. Não tenho muito apreço pelo estudo das questões militares da Segunda Guerra, mas, pelos bastidores, pelo imaginário e pela cultura do período. Os dois livros, embora muito mais o primeiro, tratam de como as teorias da conspiração estão relacionadas ao nazismo e ao führer

Esses dois livros são de historiadores que eu chamo de ortodoxos. São dois acadêmicos. Não tratam aqui de abordagens levianas, de abordagens alternativas. Fazem um inventário bibliográfico clássico. 

Kurlander é professor na Universidade Stetson, da Flórida. Ele neste livro faz um passeio bem detalhado pelo cenário ocultista alemão do pré e o durante Segunda Guerra Mundial. O ocultismo, defino, como uma variedade práticas de artes alternativas de entendimento de fenômenos ou pretensos fenômenos humanos pararreligiosos, como a astrologia, o tarot, a cabala, a maçonaria, o rosacrucianismo, a antroposofia, a ariosofia, geomancia, mesmerismo, espiritismo ou a parapsicologia. Adoto aqui a expressão pararreligioso, para me referir à atitudes que tendem a ser praticadas não em um sentido religioso ortodoxo, dentro de uma doutrina cristã habitual, mas, que podem ser adotadas por indivíduos religiosos ou não, ainda que se busque com isso acessar a transcendência, obtendo revelações, falando com espíritos, tendo contato com outras dimensões, descobrindo aquilo que está oculto no saber religioso convencional. O ocultista me parece aquele sujeito inconformado com a maciez de um rito religioso tradicional e busca ir além, ou direto à fonte em busca de caminhos alternativos, daí ser paralelo à religião. 

A Alemanha, Kurlander aponta, é uma terra próspera para o progresso de doutrinas ocultistas alternativas. Cito, por exemplo, que foi ali onde a antroposofia nasceu, como a costela separada da teosofia por Rudolf Steiner, um pupilo da Madame Blavastky. A antroposofia existe até hoje, tem crescido e aumentado o número de seus adeptos no mundo todo. Hoje se apresenta de forma mais maneira, mais mansa, sem qualquer referência ao nazismo, ainda que o autor cite inúmeras vezes que antroposofistas ocuparam muitos cargos de destaque nos departamentos de pesquisa de ciências paralelas do Terceiro Reich. Não me parece que os antroposofistas brasileiros tenham qualquer simpatia por aspectos do nazismo. Nunca observei nada sobre isso. A Sociedade Antroposófica em São Paulo, ligada à colônia alemã paulistana não parece ter absolutamente nada a ver com o nazismo. O que Eric Kurlander demonstra, no entanto, é que abordagens heterodoxas de antroposofistas eram muito bem vistas por líderes nazistas, que procuravam dar voz à ciência alternativa, como, por exemplo, a homeopatia e o vegetarianismo. Rudolf Steiner e os antroposofistas, por exemplo, são criadores da chamada agricultura biodinâmica, método naturalista de produção que os nazistas consideravam um modelo adequado à ser implantado em larga escala, sobretudo quando a guerra cessasse e as terras conquistadas, que comporiam o lebensraun alemão, especialmente em territórios checos, poloneses e ucranianos, fossem pacificamente transformadas em áreas agrícolas que seguiriam o modelo de fazendas padrão do reich de mil anos, pensado pela sociedade Anenenbe, de Richard Walther Darré, importante liderança argentino-alemã que controlava essa instituição, ligada às SS, de Himmler, que tinha por função pesquisar a herança ancestral dos arianos e levar adiante o planejamento racial e colonizador que constituiria o "reich de mil anos". 

Alon Confino chama bem a atenção para a necessidade de historiadores e demais estudiosos do nazismo se voltarem para as questões imateriais que cercam esse fato histórico. A mentalidade, o imaginário, a psicologia da população alemã da época. Definitivamente, sair do enfoque biológico, cientificista e evolucionista do racismo e olhar para as questões da cultura da Alemanha do período. Isso fica claro desde o início de seu livro, quando insiste na questão da queima de rolos da torá e outros objetos ritualísticos judaicos pelas SA. Ele pergunta a razão dos alemães (ele não os distingue aqui dos nazistas) queimarem "a Bíblia", livro sagrado para os cristãos. A razão era variada: apavorar, afugentar, deixar os judeus confusos com o que os nazistas realmente queriam deles, em último caso, chocar. Mas, cabe a objeção que a torá, embora tenha os livros que compões o Antigo Testamento da Bíblia, em si não se trata da Bíblia. Nenhum judeu trata a Bíblia como a torá com acréscimos e, de igual maneira, nenhum cristão sensato (cristãos sionistas não são sensatos) trata a torá como a inteira Bíblia, portanto, a integral Palavra de Deus. Independente disso, a queima dos pergaminhos judaicos sacros queria, segundo o autor, passar a mensagem simbólica de que um novo cristianismo estaria em formação, limpo dos entulhos judaicos. 

















quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Ich hab's gewagt

 Ich hab's gewagt: "Eu ousei".



Inscrição que constava até 2011 no túmulo de Rudolf Hess. 

Sepultura destruída pela prefeitura local. O buscador da paz foi incinerado e suas cinzas jogadas no mar.


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Curtas

Prova de como ficamos vagabundos. 

Quinta-feira é o dia do rodízio do meu carro. Fico atado a não passar nas marginais ou ir além do Aeroporto de Congonhas. É um saco. Eu queria ir no Bom Retiro nesse dia, mas, a ideia de ter que pegar um ônibus, descer em Santo Amaro, pegar o metrô, fazer baldeação na Santa Cruz e descer na Luz e andar meia José Paulino até chegar onde queria não está em cogitação. 

Em 2010 faria isso sem qualquer óbice.

Virei um vadio dependente do carro. 
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Conto a história em passagens futebolísticas. 

Em 2003 me lembro claramente do encanto que foi ver Marcelo Gallardo desfilar com a linda camisa do River Plate, na Libertadores daquele ano. 

22 anos depois ele é um tiozinho atarracado que treina o mesmo River.

É difícil pensar que se passaram 22 anos. E eu ainda estou no mesmo lugar, na mesma casa, sob o mesmo teto. Verdade é que meu pai já não está aqui. Um dos meus irmãos, eterno passageiro desta morada, também já foi para a "Terra do Pé Junto" e o mais novo não mora mais aqui. Estou eu e minha mãe. A rua não mudou. As casas são quase todas as mesmas. Alguns vizinhos foram embora, outros morreram, outros ainda estão aqui. 

As minhas memórias são um monumento. Queria poder registra-las todas. 
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Existem sensações que parecem únicas, que só você mesmo as sente, embora ao seu lado, naquele local e hora, existam outros tantos vivenciando o mesmo. 

Dizem que não existem experiências únicas. Talvez seja verdade. Mas, compartilhamos todas as sensações ou as sabemos descrevê-las bem o suficiente para os outros nelas se identifiquem? 

Uma tarde quente de domingo, com ameaça de chuva. Duas centenas de músicos. Irmandade cantando. A luz não cem por cento acesa no salão. Poucos lugares vazios para sentar. Mais trinta ou cinquenta lugares disponíveis para músicos? Talvez, não mais do que isso.

Há algo belo na arquitetura singela, igualitária e simétrica das congregações. Não há poluição. É um brilho que precisa ser admirado. Não é preciso ser barroco. O protestantismo que para no tempo tem essa beleza. O continuado é um assombro, faz mal. Templo não é cinema. Precisa ter luz. 
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A direita do X vive descendo a lenha quando alguém fala em alta cultura. Presumir-se-ia tratar-se de uma cultura que beirasse os dois metros, pelo menos. Ficam cheios de caras quando alguém diz que escuta André Rieu. A nova direita é arrogantemente católica. É um péssimo defeito. E essa arrogante direita, católica porque chique, acha o quê, que se deve ouvir cantos gregorianos em latim, apenas? Ler George Bernanos, apenas? Aliás, tudo cascata! Nunca leram Bernanos. Leem posts do Instagram, quando muito. 

Eu continuo ouvindo André Rieu. E Richard Clayderman. E todo o easy listening. É ótimo. 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

O paulistano eterno

 Me identifico com o paulistano que mora na casa que restou numa rua em dissolução.

É como o velho morador de Pinheiros, que habitava uma casa ou sobrado, hoje cercado de comércios, prédios envidraçados e milhares de transeuntes. 

É como alguém que resiste em morar numa casinha na Vila Olímpia. 

Ou mora no Largo 13.

Na avenida São João ainda resta uma casa.

Na mente tenho essas imagens. Desde sempre reparei nuns tipos assim. Um velho que envelhece com o imóvel. Ambos dois resistentes.

Eu sou também um resistente e minha casa também. Resistimos, pois somos eternos. 

A última casa da Avenida São João

Um desses resistentes, venceu a morte pela memória.


sábado, 12 de julho de 2025

O político humano

O melhor político que há é aquele que tem a sua história pequena rastreável: você sabe onde o sujeito toma cerveja, que padaria compra pão, em qual Drogasil vai quando precisa comprar um xarope pra tosse. Aqui em São Paulo há alguns assim. Vereadores, deputados e até mesmo o prefeito. Isso é um privilégio nesses tempos de distopia. É sinal que eles ainda são seres humanos. Brevemente, até isso será roubado de nós. 

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Um pentecostalismo elegante.

 Faleceu no último fim de semana o pastor Gedelti Gueiros, fundador da Igreja Cristã Maranata. Aqui em São Paulo essa denominação evangélica não é tão relevante, numericamente, como é no seu estado de fundação, o Espírito Santo. Os Gueiros eram presbiterianos que se separaram do presbiterianismo e caminharam em direção ao pentecostalismo. O que me chamou sempre a atenção, observando o movimento pelo olhar sociológico, é que a família Gueiros era uma família bastante educada, com acesso à espaços de poder. O pastor Gedelti foi um importante dentista e uma figura extremamente respeitada na sociedade capixaba. O atual presidente da igreja, Alexandre Gueiros é jurista e diplomata. O destacado poeta Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, é pastor maranata. 

Em um contexto de baixa escolarização, como é, normalmente, o meio pentecostal brasileiro, estejamos falando de lideranças ou de fiéis, a liderança presbiteral da Igreja Maranata tende a fugir da regra. Embora não pareça que seja dado destaque a essas figuras por suas formações profissionais e acadêmicas, ainda assim isso se destaca. Carlos Nejar talvez seja o protestante mais destacado nas letras brasileiras. Não me recordo agora de outro nome, ao menos vivo, que possa fazer-lhe sombra nesse quesito. Ao menos que tenha algum reconhecimento sobre si. Há inúmeros professores, acadêmicos que são evangélicos, mas não gozam do prestígio que o poeta tem. 

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Uma sala, um sofá e uma poltrona.

Uma sala. Um sofá e uma poltrona. Um homem assiste atentamente ao noticiário internacional. Ao seu redor poucos elementos. Uma incrível ausência de cortina permite que meu olhar invada sua morada. Na garagem um Fiesta 98 e um jardim em sequidão. Em 2025, ver cena assim é um exercício de história comparada. É como em 95 assistir uma cena sobrevivente de 1965. Eu vi isso também. Casas com móveis azuis bebê, radiolas, enciclopédias nas estantes, tv de tubo com móvel de madeira. Via carros dos anos 50 e 60. Rural e Aero Willys. Impala, Dodges, Gordini, TL, Variant, "Zé do Caixão" e toneladas de Fuscas. O menino de hoje talvez me veja e pense: esse sujeito, entrando na igreja numa noite de quarta feira, com sua Bíblia de corte dourado, com tênis antigo, com cara de velho, um mané, um sujeito do passado, com seu carro também fora de linha. Mal sabe ele o que pode lhe esperar: ser julgado, avaliado e analisado por gente que ainda sequer foi parida. 

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Faculdade pra que?

Me parece urgente repensar como um todo o ensino superior brasileiro e toda a prática docente, metodológica, avaliativa e de ingresso da nossa dita academia. O atual governo, movido sabe Deus por quais forças e interesses, parece ter tomado uma medida correta reduzindo um pouquinho as mamatas e descasos que havia com a verdadeira venda de diplomas, por meio dos cursos de graduação e especializações por via ead. O ead é uma farsa. É um sistema que pode atender a muitos, mas quase sempre atenderá da forma mais precária e desonesta possível. 

Com o crescimento e avanço dos aplicativos e sites de inteligência artificial, que podem fornecer respostas padrão para todo o tipo de perguntas de múltipla escolha ou ainda gerar parágrafos e mais parágrafos sobre qualquer assunto técnico que você pensar, basta que você aplique o prompt correto -- ou seja, saiba fazer as perguntas corretas para a inteligência artificial e direcioná-la, não há mais modelo de ensino à distância que faça o menor sentido, se ele não for baseado, na melhor das hipóteses, em aulas síncronas, com o professor ao vivo do outro lado da tela, forçando interação e discussão, como em uma sala de aula normal e, como instrumento avaliativo, não é possível no sistema ead fugir de seminários, apresentações e produções de texto. A aplicação de testes de múltipla escolha não cumpre sua função num sistema como esse. O chat GPT ou o Gemini estarão sempre ao alcance das mãos do aluno e com isso toda a lógica do aprendizado cai por terra. 

A ideia de que no ead o aluno seja obrigado a fazer as avaliações de maneira presencial em um polo, debaixo de alguma fiscalização (que deveria ser rigorosa, com fiscais e filmagens, destaco) já é um ganho substancial. Em 2014 fiz uma especialização em História Militar, que, por completa burrice minha, a abandonei, e essa pós tinha todas as suas avaliações presenciais, ainda que com possibilidade de consulta ao material impresso fornecido pela instituição de ensino superior. Era um tempo em que o ead ainda não estava tão safado, embora fosse já possível colar e fazer mutretas naquela época (sempre foi possível encomendar um tcc ou artigo acadêmico pronto por aí).

Ainda assim, não só o ead merece críticas. As graduações presenciais também. 

A metodologia de ingresso deveria ser totalmente revista.

Mais uma vez caberia dar um passo atrás e olhar para o passado. Voltar a ter o ingresso no ensino superior apenas por vestibulares presenciais com nota de corte mínima, a despeito das vagas existentes e também ser avaliado por redação. Talvez combinar isso com um rendimento mínimo das notas obtidas no ensino médio. É uma maneira de re-valorizar também o ensino médio, coisa muitíssimo necessária. 

Agora, outro exemplo objetivo. Com esse ingresso de pessoas despreparadas para o ensino superior a coisa já avançou para o caso de termos também professores muito despreparados para o ensino. Some-se a isso o grassante analfabetismo funcional. Um curso de direito, por exemplo, usa linguajar técnico que até muitos juristas precisam consultar dicionários específicos para entender. Há docentes que esperam que uma pessoa recém ingressa nas letras jurídicas vá compreender a maioria dos termos da área do direito. É uma ilusão. Repensar a metodologia e a didática dos cursos acadêmicos de direito é preciso. É necessário ter uma formação propedêutica muito segura nos dois primeiros semestres, ao menos. Ai podemos ir para o direito material e processual. Mas, o apressamento faz com que queiram que o aluno já tenha direito processual num primeiro semestre. Uma faculdade aqui da capital nem mais tem a disciplina da IED (Introdução ao Estudo do Direito) que é uma matéria elementar e fundamental.

Muitos dizem que a universidade para todos é um equívoco. Eu penso isso. É preciso mais critério em todo o processo, até para valorizar mais o ensino técnico profissionalizante e o ensino médio.


Curtas

Getúlio permaneceu no poder por 19 anos (1930-1945 e 1950-1954). O Lula pode encaminhar, na sequência, mais um mandato e fechar sua carreira...