LUSOSP
Pagando com alegria o preço da verdade!
terça-feira, 16 de junho de 2026
domingo, 31 de maio de 2026
Tardes de domingo
A percepção é toda delimitada.
A minha é delimitada por minha classe social: um paulistano quatrocentão pobre, de bairro antigo.
Por minha convivência na São Paulo que foi construída fisicamente bem até a época do Milagre Econômico.
Essa é parte da comunidade que vivo.
Olho na janela e vejo sol alaranjado entrar por ela, batendo na parede e na estante.
Hoje não temos crianças andando pelas ruas. Essa mesma situação há vinte anos seria diferente. Haveriam muitos meninos andando de skate, ou correndo atrás de pipas.
Há algo muito bonito nos domingos. Normalmente é dia pacífico. Normalmente é dia silencioso. O repouso reina.
Não há mais cães latindo. Há vinte anos ouvíamos vários. Quase toda casa tinha o seu.
É preciso manter a imagem do passado no presente. Sem ela, o que virá não terá alma.
sábado, 28 de março de 2026
Curtas
Eu tenho uma tese sobre isso do Rei Carlos, da Inglaterra, ser ora apresentado como um iniciado sufista, ora como um cripto judeu nato e oficialmente como chefe supremo da Igreja Anglicana, portanto, um cristão protestante e herdeiro do anglo-catolicismo. Tudo isso só é possível, de fato, dentro de uma estrutura esotérica sufista, se com relacionamento direto com o movimento guenoniano não sabemos. A Inglaterra, o maior império da história, em extensão, possibilitou que o esoterismo ocidental pudesse perscrutar o esoterismo oriental, nativo americano e africano. Nenhum outro império pode ter tanto acesso à todas as matrizes esotéricas quantos os ingleses. Eu lamento muito por isso. O engano tomou conta. Meu interesse nisso é enquanto fenômeno social, fato histórico. Religiosamente a importância de tudo isso é nula. Toda teologia cristã já esculhambou isso. Lamento mais ainda pela bela Igreja Anglicana, hoje pervertida por sodomitas, feministas e liberais. Ainda há justos lá. Não serão totalmente aniquilados. Há uma chance de restauração.
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Talvez isso tenha acontecido em 2010. Mais tardar 2011.
Eu lia um livreto daqueles de máquinas do metrô, em papel jornal, da editora Escala. Era um livro de aforismos e sentenças de Frederico Nietzsche. Me lembro bem da cena. Estava sentado no fundo do ônibus, ou da linha 576-C/10 ou da 5010-10, que saem de Santo Amaro e vão até o Jabaquara. Eu tinha esse hábito de sair mais cedo de casa e pegar vários ônibus para ir até Santana, por duas razões, para economizar com a integração com o metrô e para poder andar pela cidade e a observá-la. Para mim é sempre uma alegria olhar a cidade. Nesse dia, uma moça se sentou perto de mim e puxou conversa sobre o sifilítico filósofo. Eu estava no alvo daquela aranha que pretendia me arrastar para sua teia. Hoje, em período de Tinder, não sei se isso continua existindo, isso, digo, o flerte em locais públicos. Não ando mais de ônibus há muitos anos. Nas filas do supermercado ou nos atendimentos que faço na repartição nunca presenciei isso. Nem na igreja eu vejo algo semelhante. Não faço ideia de como as pessoas se relacionem mais. Talvez eu devesse ter me aproximado da teia daquela aranha.
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A falta de informação e a desinformação explicam a razão da direita política atual e dos evangélicos atuais serem abertamente e ostensivamente a favor do Estado de Israel. A falta de informação sobre como os judeus historicamente veem os cristãos, como o Talmud, o livro sagrado do judaísmo rabínico se refere à Jesus Cristo e à Maria Virgem, sobre como os judeus acham que são uma raça superior a todos os demais povos do mundo -- por direito divino e que quando o seu falso messias vier eles irão dominar todos os demais povos e nos fazer de escravos seus. Desinformação, ou melhor, mentira, ao perverter o dispensacionalismo, vertente cristã da escatologia, que vê a história da Igreja em eras de dispensação do poder divino, onde haverá o milênio literal. Na perversão difundida pela maçonaria judaica (via Bíblia de estudos Scofield), os judeus passam a ter um papel especial nesse processo. O cristianismo nunca aceitou essa tese herética, nem no catolicismo, nem no protestantismo histórico. Igrejas são fechadas em Israel. Israel que apoiou o ISIS, que colocou terroristas no poder na Síria e que hoje fecham igrejas cristãs na Síria. Roma versus Judea nunca terminou. Só há um lado correto nessa guerra, o de Roma. Judeus não protegem cristãos, ao contrário, nos atacam. Que se lasquem o quando for preciso na guerra em que criaram.
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A direita brasileira atual é uma só coisa: um híbrido entre o centrão fisiológico e neoconservadorismo americano. É péssima. Mas, não critique, não fale nada, senão o Lula se reelege. Uma direita brasileira que fica se estapeando num evento do Partido Republicano, o CPAC, só demonstra que estamos falando de vendilhões, não de patriotas. Nada me surpreende. Separatismo contra essa gente. O separatismo é sempre um cordão sanitário.
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Minha mente, diariamente, me leva em lugares da cidade de São Paulo. Estou pensando em alguma coisa qualquer e vejo um frame da Avenida Vereador José Diniz. Estou dirigindo e vejo na mente a Avenida Pompéia. Noutra hora estou transplantado para a Avenida Sapopemba ou a Rua da Mooca. Isso me lembra que ontem, andando pela região da Saúde e do Planalto Paulista eu fiquei espantado como a cada dia que ando em São Paulo eu conheço uma rua nova, um pedaço novo da metrópole e dela não me enjoo. São Paulo é única e irrepetível. É a maior cidade do mundo. É o mundo.
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O nacionalismo brasileiro parece estar em processo de uma nova onda, impulsionado pela saída de cena do nacional desenvolvimentismo do Ciro Gomes, com o fracasso total do PDT, que se converte em simples legenda alternativa ao PT, portanto, refém do esquema de juros altos e máfia dos bancos, do qual o PT é o grande representante e pela paralela ascensão do ex-comunista Aldo Rebelo, que não se pode negar o espírito de Policarpo Quaresma de longa data, raposa velha da esquerda parlamentar que se cansou dos conchavos parlamentares e deverá sair candidato à presidente. A velhice dá esses ataques de coragem. Aldo já foi ministro várias vezes, deputado federal, presidente da câmara, eminência parda. Agora quer tentar arriscar disputar a presidência, talvez mais para denunciar o esquema político que aí está do que qualquer outra coisa. Acho que ele está certo. Apesar de ser um opositor total ao nacionalismo brasileiro, acho que para o primeiro turno uma figura como Aldo Rebelo é digna de receber um voto. Não por outra razão senão pela ausência de coisa melhor na disputa. Já votei no Eymael e no Levy Fidelix. Agora o micro candidato é ele. No segundo turno é só o anti-PT mesmo.
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Meta profissional: passar a semana enrolando para escrever uma coluna para um jornal de domingo. Ser fartamente remunerado por isso. A Mega Sena é um sonho mais factível.
sábado, 21 de março de 2026
Curtas
Aleksandr Dugin é um nome muito falado no meio conservador brasileiro. O debate que teve com Olavo de Carvalho, em 2011, sobre a Nova Ordem Mundial ressoa até hoje. Os comentaristas políticos falam em sua influência se estendendo até o Estado Maior brasileiro. Eu não duvido. Eu li esse debate. É um livrinho fácil de ser lido, embora a discussão seja cansativa pelos dois lados. Recentemente li outros livros sobre a influência da escola perenialista, da qual Dugin é um filhote indireto, na política. Entendo, assim como outros, que a sua relevância é inconteste. É um pensador que mistura escatologia, milenarismo e gnosticismo. Seria possível um tradicionalismo político paulista, nos moldes do modelo que Aleksandr Dugin pensou para a Rússia? Qual o papel teleológico que São Paulo tem no concerto da história das nações? Haverá uma escatologia política paulista?
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O Agente Secreto não é filme ruim. Diria que ele não é ruim não só em comparação com um filme brasileiro. Ter como panorama histórico algumas maldades genéricas da ditadura militar não é um problema. O Brasil teve uma ditadura militar. Eu gostaria que fizessem mais filmes mostrando os crimes da ditadura Vargas. É um assunto que precisa ser explorado. Mas, não me parece que a ideia que os autores tinham era vender a coisa como um filme a mais sobre o governo militar. A ideia é de um drama ambientado nesse contexto histórico. O filme tem méritos técnicos. Um Peugeot 206 também tem seus méritos técnicos, ainda assim, nem o filme, nem o carros são dignos de aplausos.
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Leio notícia que o deputado Hélio Lopes, vulgo, Hélio Negão, teria mudado seu domicílio do Rio de Janeiro para Roraima. A mudança indiscriminada de domicílio eleitoral, como hoje permite a legislação eleitoral, precisa ter um fim. Hélio Negão não conhece as necessidades e a realidade de Roraima, assim também o governador Tarcísio de Freitas não tem nada a ver com São Paulo, não tendo nenhum vínculo com a Pátria Bandeirante, ainda assim, o sistema aceitou que ele estabelecesse domicílio eleitoral, em 2022, na cidade de São José dos Campos, onde seu vice, Felipe Ramuth já tinha sido prefeito. Tudo combinado, é claro. A ideia de que um sujeito pode disputar uma eleição em qualquer buraco que não more reforça a ideia de que políticos devem ser sujeitos técnicos, um certo tipo de burocrata ou ser super esclarecido, pouco importando a sua origem. Discordo. Políticos devem morar no rincão que representam. Devem ter identidade com sua cidade e estado. O Brasil, que ama a regulação estatal, precisa regular melhor isso.
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Eu tenho medo de políticos que tenham visão modernizadora. Mais medo ainda tenho daqueles que mais que a visão tem a ação modernizadora. Na estação que passamos, devemos olhar mais para trás. O futuro é só tristeza. Precisamos evitar que ele chegue a todo custo.
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Lula agora está usando chapéu. Está querendo seguir o modelo do Aldo Rebelo? Aliás, a ideia de ter que votar no Aldo Rebelo, comunista e palmeirense, muito desagrada. Porém, nesta vida tereis aflições...
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Sempre achei que escola não é lugar para religião. Especialmente escolas públicas. Aliás, escola não deveria ser lugar para violência, mas é, não deveria ser espaço para quem não tem vocação mínima para o estudo, mas é, não deveria ser espaço para assédio, mas é. Não deveria ser espaço para um monte de coisas, mas é. A escola é tudo aquilo que ela não deveria nem poderia ser.
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Em que ano essa história deve ter se passado? Eu estimo em 2008. Meu pai estava internado em hospital que foi fechado há mais de dez anos. Acho que estava com uma camisa cinza chumbo, a mesma que usei na foto da minha reservista. O velho tinha uma plêiade de doenças. Dessa vez a internação tinha a ver com o intestino. Me lembro que nessa internação eu dei banho nele com a mangueirinha da ducha higiênica do apartamento do hospital e que essa ducha parecia tão forte como uma Wap. Um dia, nesse período, minha tia resolveu visitar meu pai e eu fui junto por alguma razão. Essa minha tia é uma versão do Ronald Golias de saia, pelo sotaque paulista carregado e pela generosidade. Desse dia com ela eu ainda me lembro de algumas coisas: nós dois parados no ponto de ônibus central, do corredor, de um motoqueiro que foi abalroado na pista ao lado. Me lembro de ver alunos do cursinho do Objetivo saindo da aula. E me recordo que minha tia mexeu no meu cabelo e falou: "você está com cabelo duro, isso é coisa de preto". A fala não me causava surpresa nenhuma. Meu pai tinha a mesma fala dela, afinal, eram irmãos. De tanto lavar o cabelo com sabonete, meu cabelo ficou mais crespo. Depois, quando o dinheiro voltou a possibilitar que se usasse shampoos em casa, o cabelo alisou para o normal, novamente. Meu pai já foi há quinze anos. Essa minha tia nonagenária está aqui entre nós. É ótimo ter tias. E ter pai.
domingo, 8 de fevereiro de 2026
A longa permanência militar.
"Muitos fazendeiros, revoltados, expulsaram-nos das fazendas, Outros buscaram mantê-los pelo teto e pela comida. Outros pagaram-lhes algum salário como concessão. Na verdade, a maioria dos fazendeiros não estava preparada para a situação nova, tanto econômica quanto psicologicamente, à exceção da maioria dos fazendeiros paulistas, que, por seu governo, contratara italianos para a lavoura e já se acostumara com o pagamento da mão-de-obra rural." (pp.37)
sábado, 7 de fevereiro de 2026
Curtas
Getúlio permaneceu no poder por 19 anos (1930-1945 e 1950-1954). O Lula pode encaminhar, na sequência, mais um mandato e fechar sua carreira com 16 anos de presidência. É claro que o Barba vai se comparar com o Caudilho. Na verdade, ele o imita. Mas, a bem da verdade, a Dilma do Getúlio, que foi Juscelino, foi muito mais competente.
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"A coesão nacional é um fator inseparável da liderança, as maiorias e minorias nacionais se perderão nos desvãos sectários da polêmica estéril e a nação se desencontrará de seu destino. Sem liderança não haverá objetivo, não haverá convergência, não poderá haver força, potência."
(General Carlos de Meira Mattos) (1975: 102)
Hoje, General, felizmente, continuamos sem liderança, o que muito me alegra, pois, possibilita que os ânimos separatistas possam continuar em efervescência. No breve e não distante período em que tivemos um presidente militar, um "mito" nasceu e arrebatou o coração de um milhão de pessoas. É mister que não surjam novos mitos para o Brasil, antes que nasçam 27 mitos para as Pátrias Estaduais.
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| 'General J. B. Gordon at Gettysburg' by Don Troiani |
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sábado, 15 de novembro de 2025
O salário do pecado é a morte.
Alon Confino: um mundo sem judeus. Breve resenha.
Alon Confino me parece querer situar seu livro em uma história da percepção ou dos sentimentos, de como a sociedade alemã percebeu o fenômeno da perseguição aos judeus. Destaco que o autor normalmente utiliza em conjunto as palavras nazistas, alemães e cristãos em conjunto, procurando evidenciar que na sua perspectiva essas três dimensões da sociedade alemã são corresponsáveis pela elaboração de uma possibilidade de extermínio dos judeus na Europa e do apagar da história judaica. Ele situa o holocausto em contexto de outros genocídios, negando colocar esse evento em separado de outras mortandades étnicas ou religiosas, como o caso dos armênios ou de Ruanda. Porém, destaca que os nazistas viram a chance de eliminar o próprio demônio, pois, era assim que o nacional socialismo enxergou o seu inimigo. Ao contrário do liberalismo, cujo inimigo é a tirania, do marxismo, que enfrenta a sociedade de classes, do freudismo, que coloca o mal dentro do próprio indivíduo, o nacional socialismo identificou o mal objetivamente em um grupo étnico que desde o início da história procurou escravizar os arianos, razão pela qual os alemães deveriam extinguir os judeus da Europa. O judeu era a manifestação do mal. É o livro mal traduzido (tem erros claros) e o original talvez seja tão confuso quanto a versão traduzida, o que não impossibilita o leitor de compreender a tese de Confino.
sábado, 4 de outubro de 2025
O imaginário pós nazista
Em 1945, com o avanço de tropas aliadas sobre a Alemanha, chegava ao fim o teatro ocidental da Segunda Guerra Mundial. Os soviéticos por um flanco e os demais membros da coalizão aliada por outro. Até o Brasil participou desse processo, embora tenhamos ficado mais ao sul, não chegando na hora mais escura em Berlim.
30 de abril daquele ano é a data mais importante, não pelo fim em si das hostilidades, mas, pelo fim da vida de Adolf Hitler, cuja morte se registra nesse dia, ainda que muitos insistam na hipótese de que ele não tenha se matado e tenha fugido. Não conheci pessoa que estudasse ou acompanhasse o tema a sério que levasse em consideração a hipótese de que o führer tenha saído com vida de Berlim. É uma hipótese que não combina com a ideia de um final heróico. É ideia de um Hitler fraco, covarde e que, mais importante ainda, não se apoia nas evidências históricas.
Oitenta anos depois e o nazismo e a vida de Hitler ainda são assuntos de momento, palpitantes.
Quando o assunto aparece em um noticiário é como se a ameaça nazista estivesse tão viva como em 1933, ano em que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães subiu ao poder, na República de Weimar.
São comuns reportagens mostrando alguma pessoa, normalmente um colecionador de itens históricos relacionados à Segunda Guerra Mundial, detido pela polícia, que reúne os objetos e "monta a cena", ou seja, os dispõe de maneira a dar a impressão ao telespectador de que se trata de alguém perigoso, à margem da sociedade, um homem da paleolítica que foi pego, um perigo iminente que rondava a sociedade livre. Sim, sempre um homem perigoso com uma machadinha de cortar bifes, uma bandeira, umas fotos e meia dúzia de livros. Enquanto isso, a onipresença de prisões de bandidos, ligados ou não às facções criminosas que co-controlam este país não chocam mais quando aparecem na imprensa. Uma prisão de meia tonelada de drogas, armas de grosso calibre, explosivos ou o estouro de um cativeiro chamam muito menos a atenção da imprensa do que alguém que é detido por uma investigação de algum crime de opinião ou de ter memorabília militar do período nazista. Qualquer alusão ao nazismo é pior do que qualquer outro delito. Não a toa dizem que nas cadeias, quando um skinhead é preso, ele fica em um pavilhão que reúne criminosos considerado irrecuperáveis pela própria bandidagem, como parricidas, pedófilos e outros psicopatas.
Porém, via de regra, para chegar até a cadeia é preciso ter o fato criminoso, que, normalmente não existe nesses casos mostrados na TV. A imprensa se alimenta da atenção que o público dá à essa temática. Ser nazista no Brasil é um crime que está assentado na lei 7.716/1989, que traz a seguinte ideia: que é crime praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa – ou reclusão de dois a cinco anos e multa se o crime foi cometido em publicações ou meios de comunicação social. Diz ainda a legislação: que fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.
Ou seja, nós, os historiadores estamos resguardados em nossos propósitos investigativos e de estudo do tema. Nossa finalidade não é a divulgação política do assunto, mas a discussão intelectual e acadêmica sobre a questão, amparados na liberdade de expressão, esse princípio tão humilhada, abatido e maltratado no Brasil, que ainda resiste em permanecer na legislação nacional.
| Foto mostra como uma cena é montada pela polícia para a imprensa. O que vemos? Umas facas, como milhões de brasileiros têm em casa, umas cordas e um livro que oficialmente não tem sua publicação vedada no Brasil, desde que seja para finalidades de estudo. Esse caso específico é dessa semana no estado do Mato Grosso. |
Não tenho acesso à dados e nem sei se eles existem disponíveis, mas, seria capaz de apostar que a maior parte dos crimes de racismo registrados no Brasil não passa nem perto de qualquer relação com o tema histórico do nazismo. O Brasil é um país de aberto conflito racial. Por mais que pensadores tenham teorizado sobre como o país lidou em sua história com o melting pot de nativos americanos, brancos e africanos, teoria nenhuma pode suplantar a realidade. E a realidade é a violência e o conflito, onde uma raça foi conquistadora e dominadora e assimilou uma outra, a dos indígenas, que foram em um certo momento escravizados e depois reduzidos à servidão ou ainda isolados, como parte deles se encontra hoje. A raça branca ainda trouxe para a América os negros de África, comprados naquele continente onde já eram escravizados de seus patrícios, inclusive escravizados por muçulmanos naquele continente, matéria já fartamente debatida e registrada. O tráfico negreiro transatlântico, controlado por mercadores judeus e conversos é outra marca desse processo. A única assimilação que o ocorreu, e é estupidez negar, é aquele da cobiça: o sexo entre brancos e negros ou indígenas gerou uma massa de gente parda, que pode ter se diluído mais ainda com outros brancos, sobretudo após o século XIX e terem "embranquecido". De qualquer forma, o hoje registra o racismo entre negros e brancos, ou seja, há conflito racial no Brasil. Esse conflito não passa pelo tema ou pela discussão do nazismo.
A maneira como sempre querem associar racismo ao nazismo, ainda quando o nacional socialismo é um aspecto marginal, colateral, chama a minha atenção. Considero que isso é uma estratégia da imprensa para obter impacto de audiência. Estivéssemos nos tempos em que a imprensa escrita em papel ainda era relevante eu diria que isso é feito para vender jornal ou revista. Hoje é para conquistar engajamento ou views. A imprensa não trata o tema do nacional socialismo de outra forma senão de maneira sensacionalista. Aqui no Brasil ou em outros países, especialmente nos Estados Unidos, há uma eterna exposição de sobreviventes de campos de concentração. O historiador americano judeu Norman Finkelstein já criticou essa super exposição como algo mercadológico, como mais uma atração para o cinema de Hollywood ou para a imprensa, que obtém bons índices quando exploram essa temática. Filmes sobre o nazismo ou sobre campos de concentração chamam a atenção do público e vendem ingressos e publicações. É uma questão comercial, ao fim e ao cabo, essa super exploração. A imprensa não parece se preocupar da mesma forma com temas históricos violentos semelhantes, como os relacionados a outras guerras do século XX. Nada é tão paradigmático para a imprensa comercial ou para a mídia contemporânea como a Segunda Guerra Mundial. Tenho a impressão que uma reportagem na imprensa brasileira sobre nossas revoluções, verdadeiros conflitos cívico militares, como o Golpe de 1930, a Revolução de 1932, o 31 de março de 1964 ou mesmo a própria participação brasileira na Segunda Guerra Mundial chamam tanto a atenção da imprensa quanto os temas ligados diretamente à Adolf Hitler, o nazismo ou a morte de judeus na guerra. A participação brasileira no conflito chama atenção da comunidade de entusiastas do meio militar, historiadores, descendentes de veteranos da guerra, mas para a imprensa é como se fosse uma história a parte. Tenho a impressão que a imprensa brasileira acha que a FEB não lutou contra o Eixo. Que a relevante participação brasileira não teve importância. Nos importamos com filmes como O resgate do soldado Ryan ou Pearl Harbor, histórias relacionadas com o lado americano que participou na Europa. Não temos histórias interessantes ao público para serem contadas que envolvam a soldadesca brasileira que lutou na Europa? A imprensa brasileira acha que não.
A imprensa e a educação escolar, que andam juntas de mãos dadas em todo o processo de formação intelectual da sociedade ocidental contemporânea, são as responsáveis por fermentar o imaginário popular, passados exatos oitenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial. O tema do nazismo e de Hitler vende bem. É como falar de filmes de super heróis ou como falar de histórias épicas da Bíblia. É um assunto comercial. A imprensa mantém viva a apreensão sobre o tema como uma maneira de criar um clima propício para vender mais: ingressos para o cinema, assinaturas de plataformas de streaming, livros e revistas. No Brasil, revistas de temáticas históricas que tinham apelo popular e eram facilmente encontradas nas bancas eram aquelas que falavam de dois assuntos: maçonaria e nazismo. As abordagens sempre são de teor conspiratório. Aquele que lê buscava ali descobrir segredos dos poderosos. Nazistas e maçons são vistos como grupos poderosos que tramavam por mais poder, sempre agindo pelas sombras. Até hoje se você for em bancas de jornais e revistas que ainda subsistem, provavelmente encontrará publicações sobre esses dois temas. É o que vende. É o que o público está interessado. Ao contrário do nazismo, a maçonaria representa um interesse mais profundo, pois é assunto que raramente é abordado pela imprensa, ao mesmo tempo em que há mais lojas maçônicas no Brasil do que templos da Igreja Universal do Reino de Deus.
Se as bancas de jornais, espécies em extinção, junto com as livrarias físicas, não tem mais muitas vendas de revistas sensacionalistas de divulgação histórica, a venda de livros sobre o nacional socialismo e Hitler continuam sendo relevantes. Sempre se pode encontrar novas publicações sobre o tema. Normalmente autores internacionais em traduções. Este ano li dois livros recentemente publicados no Brasil sobre o tema. O primeiro é Os monstros de Hitler (Editora Zahar, 2025), do historiador alemão Eric Kurlander. O segundo é Conspirações sobre Hitler: o Terceiro Reich e a imaginação paranóica (Editora Crítica, 2022), de Richard J. Evans, um já consagrado autor de livros sobre o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. Tenho mais outros três para ler que tratam desses temas do nazismo. Não tenho muito apreço pelo estudo das questões militares da Segunda Guerra, mas, pelos bastidores, pelo imaginário e pela cultura do período. Os dois livros, embora muito mais o primeiro, tratam de como as teorias da conspiração estão relacionadas ao nazismo e ao führer.
Esses dois livros são de historiadores que eu chamo de ortodoxos. São dois acadêmicos. Não tratam aqui de abordagens levianas, de abordagens alternativas. Fazem um inventário bibliográfico clássico.
Kurlander é professor na Universidade Stetson, da Flórida. Ele neste livro faz um passeio bem detalhado pelo cenário ocultista alemão do pré e o durante Segunda Guerra Mundial. O ocultismo, defino, como uma variedade práticas de artes alternativas de entendimento de fenômenos ou pretensos fenômenos humanos pararreligiosos, como a astrologia, o tarot, a cabala, a maçonaria, o rosacrucianismo, a antroposofia, a ariosofia, geomancia, mesmerismo, espiritismo ou a parapsicologia. Adoto aqui a expressão pararreligioso, para me referir à atitudes que tendem a ser praticadas não em um sentido religioso ortodoxo, dentro de uma doutrina cristã habitual, mas, que podem ser adotadas por indivíduos religiosos ou não, ainda que se busque com isso acessar a transcendência, obtendo revelações, falando com espíritos, tendo contato com outras dimensões, descobrindo aquilo que está oculto no saber religioso convencional. O ocultista me parece aquele sujeito inconformado com a maciez de um rito religioso tradicional e busca ir além, ou direto à fonte em busca de caminhos alternativos, daí ser paralelo à religião.
A Alemanha, Kurlander aponta, é uma terra próspera para o progresso de doutrinas ocultistas alternativas. Cito, por exemplo, que foi ali onde a antroposofia nasceu, como a costela separada da teosofia por Rudolf Steiner, um pupilo da Madame Blavastky. A antroposofia existe até hoje, tem crescido e aumentado o número de seus adeptos no mundo todo. Hoje se apresenta de forma mais maneira, mais mansa, sem qualquer referência ao nazismo, ainda que o autor cite inúmeras vezes que antroposofistas ocuparam muitos cargos de destaque nos departamentos de pesquisa de ciências paralelas do Terceiro Reich. Não me parece que os antroposofistas brasileiros tenham qualquer simpatia por aspectos do nazismo. Nunca observei nada sobre isso. A Sociedade Antroposófica em São Paulo, ligada à colônia alemã paulistana não parece ter absolutamente nada a ver com o nazismo. O que Eric Kurlander demonstra, no entanto, é que abordagens heterodoxas de antroposofistas eram muito bem vistas por líderes nazistas, que procuravam dar voz à ciência alternativa, como, por exemplo, a homeopatia e o vegetarianismo. Rudolf Steiner e os antroposofistas, por exemplo, são criadores da chamada agricultura biodinâmica, método naturalista de produção que os nazistas consideravam um modelo adequado à ser implantado em larga escala, sobretudo quando a guerra cessasse e as terras conquistadas, que comporiam o lebensraun alemão, especialmente em territórios checos, poloneses e ucranianos, fossem pacificamente transformadas em áreas agrícolas que seguiriam o modelo de fazendas padrão do reich de mil anos, pensado pela sociedade Anenenbe, de Richard Walther Darré, importante liderança argentino-alemã que controlava essa instituição, ligada às SS, de Himmler, que tinha por função pesquisar a herança ancestral dos arianos e levar adiante o planejamento racial e colonizador que constituiria o "reich de mil anos".
Alon Confino chama bem a atenção para a necessidade de historiadores e demais estudiosos do nazismo se voltarem para as questões imateriais que cercam esse fato histórico. A mentalidade, o imaginário, a psicologia da população alemã da época. Definitivamente, sair do enfoque biológico, cientificista e evolucionista do racismo e olhar para as questões da cultura da Alemanha do período. Isso fica claro desde o início de seu livro, quando insiste na questão da queima de rolos da torá e outros objetos ritualísticos judaicos pelas SA. Ele pergunta a razão dos alemães (ele não os distingue aqui dos nazistas) queimarem "a Bíblia", livro sagrado para os cristãos. A razão era variada: apavorar, afugentar, deixar os judeus confusos com o que os nazistas realmente queriam deles, em último caso, chocar. Mas, cabe a objeção que a torá, embora tenha os livros que compões o Antigo Testamento da Bíblia, em si não se trata da Bíblia. Nenhum judeu trata a Bíblia como a torá com acréscimos e, de igual maneira, nenhum cristão sensato (cristãos sionistas não são sensatos) trata a torá como a inteira Bíblia, portanto, a integral Palavra de Deus. Independente disso, a queima dos pergaminhos judaicos sacros queria, segundo o autor, passar a mensagem simbólica de que um novo cristianismo estaria em formação, limpo dos entulhos judaicos.
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Ich hab's gewagt
Ich hab's gewagt: "Eu ousei".
Inscrição que constava até 2011 no túmulo de Rudolf Hess.
Sepultura destruída pela prefeitura local. O buscador da paz foi incinerado e suas cinzas jogadas no mar.
quinta-feira, 25 de setembro de 2025
Curtas
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