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sábado, 15 de novembro de 2025

Alon Confino: um mundo sem judeus. Breve resenha.

 Alon Confino me parece querer situar seu livro em uma história da percepção ou dos sentimentos, de como a sociedade alemã percebeu o fenômeno da perseguição aos judeus. Destaco que o autor normalmente utiliza em conjunto as palavras nazistas, alemães e cristãos em conjunto, procurando evidenciar que na sua perspectiva essas três dimensões da sociedade alemã são corresponsáveis pela elaboração de uma possibilidade de extermínio dos judeus na Europa e do apagar da história judaica. Ele situa o holocausto em contexto de outros genocídios, negando colocar esse evento em separado de outras mortandades étnicas ou religiosas, como o caso dos armênios ou de Ruanda. Porém, destaca que os nazistas viram a chance de eliminar o próprio demônio, pois, era assim que o nacional socialismo enxergou o seu inimigo. Ao contrário do liberalismo, cujo inimigo é a tirania, do marxismo, que enfrenta a sociedade de classes, do freudismo, que coloca o mal dentro do próprio indivíduo, o nacional socialismo identificou o mal objetivamente em um grupo étnico que desde o início da história procurou escravizar os arianos, razão pela qual os alemães deveriam extinguir os judeus da Europa. O judeu era a manifestação do mal. É o livro mal traduzido (tem erros claros) e o original talvez seja tão confuso quanto a versão traduzida, o que não impossibilita o leitor de compreender a tese de Confino. 


sábado, 4 de outubro de 2025

O imaginário pós nazista

Em 1945, com o avanço de tropas aliadas sobre a Alemanha, chegava ao fim o teatro ocidental da Segunda Guerra Mundial. Os soviéticos por um flanco e os demais membros da coalizão aliada por outro. Até o Brasil participou desse processo, embora tenhamos ficado mais ao sul, não chegando na hora mais escura em Berlim. 

30 de abril daquele ano é a data mais importante, não pelo fim em si das hostilidades, mas, pelo fim da vida de Adolf Hitler, cuja morte se registra nesse dia, ainda que muitos insistam na hipótese de que ele não tenha se matado e tenha fugido. Não conheci pessoa que estudasse ou acompanhasse o tema a sério que levasse em consideração a hipótese de que o führer tenha saído com vida de Berlim. É uma hipótese que não combina com a ideia de um final heróico. É ideia de um Hitler fraco, covarde e que, mais importante ainda, não se apoia nas evidências históricas.

Oitenta anos depois e o nazismo e a vida de Hitler ainda são assuntos de momento, palpitantes. 

Quando o assunto aparece em um noticiário é como se a ameaça nazista estivesse tão viva como em 1933, ano em que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães subiu ao poder, na República de Weimar. 

São comuns reportagens mostrando alguma pessoa, normalmente um colecionador de itens históricos relacionados à Segunda Guerra Mundial, detido pela polícia, que reúne os objetos e "monta a cena", ou seja, os dispõe de maneira a dar a impressão ao telespectador de que se trata de alguém perigoso, à margem da sociedade, um homem da paleolítica que foi pego, um perigo iminente que rondava a sociedade livre. Sim, sempre um homem perigoso com uma machadinha de cortar bifes, uma bandeira, umas fotos e meia dúzia de livros. Enquanto isso, a onipresença de prisões de bandidos, ligados ou não às facções criminosas que co-controlam este país não chocam mais quando aparecem na imprensa. Uma prisão de meia tonelada de drogas, armas de grosso calibre, explosivos ou o estouro de um cativeiro chamam muito menos a atenção da imprensa do que alguém que é detido por uma investigação de algum crime de opinião ou de ter memorabília militar do período nazista. Qualquer alusão ao nazismo é pior do que qualquer outro delito. Não a toa dizem que nas cadeias, quando um skinhead é preso, ele fica em um pavilhão que reúne criminosos considerado irrecuperáveis pela própria bandidagem, como parricidas, pedófilos e outros psicopatas. 

Porém, via de regra, para chegar até a cadeia é preciso ter o fato criminoso, que, normalmente não existe nesses casos mostrados na TV. A imprensa se alimenta da atenção que o público dá à essa temática. Ser nazista no Brasil é um crime que está assentado na lei 7.716/1989, que traz a seguinte ideia: que é crime praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa – ou reclusão de dois a cinco anos e multa se o crime foi cometido em publicações ou meios de comunicação social. Diz ainda a legislação: que fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

Ou seja, nós, os historiadores estamos resguardados em nossos propósitos investigativos e de estudo do tema. Nossa finalidade não é a divulgação política do assunto, mas a discussão intelectual e acadêmica sobre a questão, amparados na liberdade de expressão, esse princípio tão humilhada, abatido e maltratado no Brasil, que ainda resiste em permanecer na legislação nacional. 

Foto mostra como uma cena é montada pela polícia para a imprensa. O que vemos? Umas facas, como milhões de brasileiros têm em casa, umas cordas e um livro que oficialmente não tem sua publicação vedada no Brasil, desde que seja para finalidades de estudo. Esse caso específico é dessa semana no estado do Mato Grosso.

Não tenho acesso à dados e nem sei se eles existem disponíveis, mas, seria capaz de apostar que a maior parte dos crimes de racismo registrados no Brasil não passa nem perto de qualquer relação com o tema histórico do nazismo. O Brasil é um país de aberto conflito racial. Por mais que pensadores tenham teorizado sobre como o país lidou em sua história com o melting pot de nativos americanos, brancos e africanos, teoria nenhuma pode suplantar a realidade. E a realidade é a violência e o conflito, onde uma raça foi conquistadora e dominadora e assimilou uma outra, a dos indígenas, que foram em um certo momento escravizados e depois reduzidos à servidão ou ainda isolados, como parte deles se encontra hoje. A raça branca ainda trouxe para a América os negros de África, comprados naquele continente onde já eram escravizados de seus patrícios, inclusive escravizados por muçulmanos naquele continente, matéria já fartamente debatida e registrada. O tráfico negreiro transatlântico, controlado por mercadores judeus e conversos é outra marca desse processo. A única assimilação que o ocorreu, e é estupidez negar, é aquele da cobiça: o sexo entre brancos e negros ou indígenas gerou uma massa de gente parda, que pode ter se diluído mais ainda com outros brancos, sobretudo após o século XIX e terem "embranquecido". De qualquer forma, o hoje registra o racismo entre negros e brancos, ou seja, há conflito racial no Brasil. Esse conflito não passa pelo tema ou pela discussão do nazismo. 

A maneira como sempre querem associar racismo ao nazismo, ainda quando o nacional socialismo é um aspecto marginal, colateral, chama a minha atenção. Considero que isso é uma estratégia da imprensa para obter impacto de audiência. Estivéssemos nos tempos em que a imprensa escrita em papel ainda era relevante eu diria que isso é feito para vender jornal ou revista. Hoje é para conquistar engajamento ou views. A imprensa não trata o tema do nacional socialismo de outra forma senão de maneira sensacionalista. Aqui no Brasil ou em outros países, especialmente nos Estados Unidos, há uma eterna exposição de sobreviventes de campos de concentração. O historiador americano judeu Norman Finkelstein já criticou essa super exposição como algo mercadológico, como mais uma atração para o cinema de Hollywood ou para a imprensa, que obtém bons índices quando exploram essa temática. Filmes sobre o nazismo ou sobre campos de concentração chamam a atenção do público e vendem ingressos e publicações. É uma questão comercial, ao fim e ao cabo, essa super exploração. A imprensa não parece se preocupar da mesma forma com temas históricos violentos semelhantes, como os relacionados a outras guerras do século XX. Nada é tão paradigmático para a imprensa comercial ou para a mídia contemporânea como a Segunda Guerra Mundial. Tenho a impressão que uma reportagem na imprensa brasileira sobre nossas revoluções, verdadeiros conflitos cívico militares, como o Golpe de 1930, a Revolução de 1932, o 31 de março de 1964 ou mesmo a própria participação brasileira na Segunda Guerra Mundial chamam tanto a atenção da imprensa quanto os temas ligados diretamente à Adolf Hitler, o nazismo ou a morte de judeus na guerra. A participação brasileira no conflito chama atenção da comunidade de entusiastas do meio militar, historiadores, descendentes de veteranos da guerra, mas para a imprensa é como se fosse uma história a parte. Tenho a impressão que a imprensa brasileira acha que a FEB não lutou contra o Eixo. Que a relevante participação brasileira não teve importância. Nos importamos com filmes como O resgate do soldado Ryan ou Pearl Harbor, histórias relacionadas com o lado americano que participou na Europa. Não temos histórias interessantes ao público para serem contadas que envolvam a soldadesca brasileira que lutou na Europa? A imprensa brasileira acha que não. 

A imprensa e a educação escolar, que andam juntas de mãos dadas em todo o processo de formação intelectual da sociedade ocidental contemporânea, são as responsáveis por fermentar o imaginário popular, passados exatos oitenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial. O tema do nazismo e de Hitler vende bem. É como falar de filmes de super heróis ou como falar de histórias épicas da Bíblia. É um assunto comercial. A imprensa mantém viva a apreensão sobre o tema como uma maneira de criar um clima propício para vender mais: ingressos para o cinema, assinaturas de plataformas de streaming, livros e revistas. No Brasil, revistas de temáticas históricas que tinham apelo popular e eram facilmente encontradas nas bancas eram aquelas que falavam de dois assuntos: maçonaria e nazismo. As abordagens sempre são de teor conspiratório. Aquele que lê buscava ali descobrir segredos dos poderosos. Nazistas e maçons são vistos como grupos poderosos que tramavam por mais poder, sempre agindo pelas sombras. Até hoje se você for em bancas de jornais e revistas que ainda subsistem, provavelmente encontrará publicações sobre esses dois temas. É o que vende. É o que o público está interessado. Ao contrário do nazismo, a maçonaria representa um interesse mais profundo, pois é assunto que raramente é abordado pela imprensa, ao mesmo tempo em que há mais lojas maçônicas no Brasil do que templos da Igreja Universal do Reino de Deus. 

Se as bancas de jornais, espécies em extinção, junto com as livrarias físicas, não tem mais muitas vendas de revistas sensacionalistas de divulgação histórica, a venda de livros sobre o nacional socialismo e Hitler continuam sendo relevantes. Sempre se pode encontrar novas publicações sobre o tema. Normalmente autores internacionais em traduções. Este ano li dois livros recentemente publicados no Brasil sobre o tema. O primeiro é Os monstros de Hitler (Editora Zahar, 2025), do historiador alemão Eric Kurlander. O segundo é Conspirações sobre Hitler: o Terceiro Reich e a imaginação paranóica (Editora Crítica, 2022), de Richard J. Evans, um já consagrado autor de livros sobre o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. Tenho mais outros três para ler que tratam desses temas do nazismo. Não tenho muito apreço pelo estudo das questões militares da Segunda Guerra, mas, pelos bastidores, pelo imaginário e pela cultura do período. Os dois livros, embora muito mais o primeiro, tratam de como as teorias da conspiração estão relacionadas ao nazismo e ao führer

Esses dois livros são de historiadores que eu chamo de ortodoxos. São dois acadêmicos. Não tratam aqui de abordagens levianas, de abordagens alternativas. Fazem um inventário bibliográfico clássico. 

Kurlander é professor na Universidade Stetson, da Flórida. Ele neste livro faz um passeio bem detalhado pelo cenário ocultista alemão do pré e o durante Segunda Guerra Mundial. O ocultismo, defino, como uma variedade práticas de artes alternativas de entendimento de fenômenos ou pretensos fenômenos humanos pararreligiosos, como a astrologia, o tarot, a cabala, a maçonaria, o rosacrucianismo, a antroposofia, a ariosofia, geomancia, mesmerismo, espiritismo ou a parapsicologia. Adoto aqui a expressão pararreligioso, para me referir à atitudes que tendem a ser praticadas não em um sentido religioso ortodoxo, dentro de uma doutrina cristã habitual, mas, que podem ser adotadas por indivíduos religiosos ou não, ainda que se busque com isso acessar a transcendência, obtendo revelações, falando com espíritos, tendo contato com outras dimensões, descobrindo aquilo que está oculto no saber religioso convencional. O ocultista me parece aquele sujeito inconformado com a maciez de um rito religioso tradicional e busca ir além, ou direto à fonte em busca de caminhos alternativos, daí ser paralelo à religião. 

A Alemanha, Kurlander aponta, é uma terra próspera para o progresso de doutrinas ocultistas alternativas. Cito, por exemplo, que foi ali onde a antroposofia nasceu, como a costela separada da teosofia por Rudolf Steiner, um pupilo da Madame Blavastky. A antroposofia existe até hoje, tem crescido e aumentado o número de seus adeptos no mundo todo. Hoje se apresenta de forma mais maneira, mais mansa, sem qualquer referência ao nazismo, ainda que o autor cite inúmeras vezes que antroposofistas ocuparam muitos cargos de destaque nos departamentos de pesquisa de ciências paralelas do Terceiro Reich. Não me parece que os antroposofistas brasileiros tenham qualquer simpatia por aspectos do nazismo. Nunca observei nada sobre isso. A Sociedade Antroposófica em São Paulo, ligada à colônia alemã paulistana não parece ter absolutamente nada a ver com o nazismo. O que Eric Kurlander demonstra, no entanto, é que abordagens heterodoxas de antroposofistas eram muito bem vistas por líderes nazistas, que procuravam dar voz à ciência alternativa, como, por exemplo, a homeopatia e o vegetarianismo. Rudolf Steiner e os antroposofistas, por exemplo, são criadores da chamada agricultura biodinâmica, método naturalista de produção que os nazistas consideravam um modelo adequado à ser implantado em larga escala, sobretudo quando a guerra cessasse e as terras conquistadas, que comporiam o lebensraun alemão, especialmente em territórios checos, poloneses e ucranianos, fossem pacificamente transformadas em áreas agrícolas que seguiriam o modelo de fazendas padrão do reich de mil anos, pensado pela sociedade Anenenbe, de Richard Walther Darré, importante liderança argentino-alemã que controlava essa instituição, ligada às SS, de Himmler, que tinha por função pesquisar a herança ancestral dos arianos e levar adiante o planejamento racial e colonizador que constituiria o "reich de mil anos". 

Alon Confino chama bem a atenção para a necessidade de historiadores e demais estudiosos do nazismo se voltarem para as questões imateriais que cercam esse fato histórico. A mentalidade, o imaginário, a psicologia da população alemã da época. Definitivamente, sair do enfoque biológico, cientificista e evolucionista do racismo e olhar para as questões da cultura da Alemanha do período. Isso fica claro desde o início de seu livro, quando insiste na questão da queima de rolos da torá e outros objetos ritualísticos judaicos pelas SA. Ele pergunta a razão dos alemães (ele não os distingue aqui dos nazistas) queimarem "a Bíblia", livro sagrado para os cristãos. A razão era variada: apavorar, afugentar, deixar os judeus confusos com o que os nazistas realmente queriam deles, em último caso, chocar. Mas, cabe a objeção que a torá, embora tenha os livros que compões o Antigo Testamento da Bíblia, em si não se trata da Bíblia. Nenhum judeu trata a Bíblia como a torá com acréscimos e, de igual maneira, nenhum cristão sensato (cristãos sionistas não são sensatos) trata a torá como a inteira Bíblia, portanto, a integral Palavra de Deus. Independente disso, a queima dos pergaminhos judaicos sacros queria, segundo o autor, passar a mensagem simbólica de que um novo cristianismo estaria em formação, limpo dos entulhos judaicos. 

















quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Ich hab's gewagt

 Ich hab's gewagt: "Eu ousei".



Inscrição que constava até 2011 no túmulo de Rudolf Hess. 

Sepultura destruída pela prefeitura local. O buscador da paz foi incinerado e suas cinzas jogadas no mar.


domingo, 30 de abril de 2023

Comentários sobre a obra VRIL - O poder da raça futura, de Bulwer-Lytton.

 A literatura está repleta de livros que dão asas à imaginação prodigiosa de autores que pensaram sociedades alternativas e utópicas, visões muitas vezes propositivas de seus ideários, mas ocultados e disfarçados sob o véu de obras de ficção. Reputo, por exemplo, A Máquina do Tempo, de H.G. Wells como um livro que se enquadra perfeitamente nesta categoria. São conhecidas as ligações do senhor Wells com sociedades políticas secretas socialistas, no caso a malfalada Sociedade Fabiana, que propunha um socialista reformista, lento e gradual. O símbolo dessa sociedade política era, aliás, uma tartaruga, para ilustrar que os seus membros não tinham pressa em alcançar os seus fins. Todo esse projeto de poder mundialista e globalista, que hoje é tema de discussões e chamado pela imprensa hegemônica de teoria da conspiração da ultra direita, no fundo, é a continuação das discussões iniciadas ainda no século XIX sobre alternativas socialistas para a construção de um mundo perfeito, que suplantasse a luta de classes por meio de reformas sociais-democratas.

Há literatura utópica que propõe um mundo, como um diagrama a ser seguido, como já citei "A Máquina do Tempo", mas poderia citar a Utopia, de Tomás Moro, livro ainda do século XVI, ou A Cidade do Sol, de Tomaso de Campanella. Há também livros que denunciam a degeneração da utopia, quando realizada, como é o famosíssimo caso de 1984, de George Orwell, que, sendo um socialista um pouco arrependido, após ver os caminhos que o socialismo real estava trilhando, denunciou a escravidão absoluta que o homem poderia estar submetido em um estado socialista totalitário. Precisamos reforçar sempre que todo estado totalitário moderno é sempre um estado socialista, por mais que venha a ter matizes diferentes. Há versões nacionais de socialismos. Há socialismos de empresários monopolistas, como é aquele proposto por grupos globalistas, que até apelidaram seu ideário mais recentemente de capitalismo (sic) de stakeholders. Aproveito para lembrar que a Revolução Russa foi totalmente financiada por banqueiros judeus americanos de Wall Street. Lembro também que todo desenvolvimento tecnológico feito pela União Soviética e pela China somente foi possível com a entrega de tecnologia por parte de países capitalistas ou o simples roubo dessas tecnologias. O socialismo não é criador nem multiplicador de riquezas e de tecnologias. Vejam a Cuba do século XXI, em que tal miséria vive, absolutamente isolada em seu socialismo autárquico, que mantém uma população completamente miserável e famélica. Cuba sem recursos doados pela URSS nunca conseguiu deixar de ser uma ilha-favela, pior e mais pobre do que muitas favelas brasileiras.

Contudo, me chamou a atenção uma obra de utopia não tão conhecida nem tão lida no Brasil, do autor esotérico Edward Bulwer-Lytton. Inglês do século XIX, lançou VRIL - O poder da raça futura sete anos após o livro mais famoso de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra. Vril também se passa no centro do planeta Terra, que seria oco, fazendo referências claras à tradições religiosas e místicas orientais, como no budismo tibetano, que prega a existência de Agartha, uma cidade secreta no centro do planeta, somente acessada por pessoas especiais, a partir de caminhos ocultos e preservados por mestres tibetanos. Sobre Agartha, posso recomendar o livro do jornalista e escritor polaco Ferdynand Antoni Ossendovsky, Bestas, Homens e Deuses (traduzido e publicado em português). Ossendovsky nasceu em uma família polonesa abastada, tendo vivido na comunidade evangélica reformada polonesa (país majoritariamente católico) e viveu viajando pelo Oriente, onde entrou em contato com diversas narrativas e tradições religiosas e místicas. É considerado um dos grandes nomes da literatura de viagem. 

O personagem central da história, um humano que em algum local incerto e não sabido, no século XIX, adentrou uma antiga mina e perscrutando aquele ambiente acaba descobrindo uma fonte de luz muito incomum, nunca vista por ele, que lhe desperta a atenção, junto com um seu companheiro. Sendo atraídos pela curiosidade, atravessam em direção a essa luz dentro da caverna da mina e entram em um mundo novo, subterrâneo, mas iluminado e composto de paisagens naturais que, embora distintas das terráqueas, ainda assim lembram a superfície. Ao entrar em contato com os seres desse mundo, o personagem central descobre uma sociedade avançada, humanóide, que migrou para o centro da Terra após alguma catástrofe natural antediluviana, que fez com que progredissem muito e em ritmo diferente dos povos da superfície. (A imaginação do leitor que tem referências bíblicas não pode deixar de pensar que tais habitantes, bonitos, mais altos e alvos do que os homens da superfície, seriam néfilins, supostos híbridos entre as filhas dos homens e anjos caídos, como é citado no Antigo Testamento.)

Uma obra utópica serve precipuamente, ou deveria servir, para questionar a sociedade vigente. Pode servir como tema para discussão de qual caminho aquela sociedade pretende tomar e seguir ou ainda de quais decisões abortar, como é mais característicos em obras que denunciam o caráter totalitário de sociedades utópicas (as distopias, como 1984). No caso de Vril, a sociedade subterrânea é muito avançada tecnologicamente e também socialmente. É uma monarquia eletiva que elege um magistrado ilustrado que governo temporariamente aquela comunidade. A civilização subterrânea não padece de problemas sociais de nenhuma natureza. Não há problemas de natalidade, de desabastecimento de comida, de violência, de ocupação do território. Todas as comunidades são pequenas e quando o número de população de uma delas cresce em demasia, há um fluxo migratório para outras comunidades, de modo que as cidades são pequenas e perfeitamente se mantém em equilíbrio. Não há trabalho manual, no geral, pois as atividades do dia são realizadas por robôs autômatos. O próprio trabalho intelectual é basicamente desprezível, pois não há muito o que ser questionado ou repensado, já que há o domínio da energia do Vril, mais forte nas crianças e nas mulheres - em especial nas mulheres - afinal, essa sociedade perfeita do submundo é uma ginecocracia. Até a religião está pacificada. Todos creem em um ser supremo, uma divindade que dá a vida e a retira quando quer. Toda a crença religiosa é uniforme e pacificada. Não há discussão dogmática ou de natureza teológica, por absoluta falta de necessidade. Todo ordenamento socialmente está plenamente pacificado. Não há, essencialmente, discórdia.  Há ali paz e felicidades perpétuas. A compreensão e o entendimento são plenos, inclusive em temas como a morte ou o casamento e a reprodução. Entendo essa sociedade apresentada como uma representação idealizada do paraíso. É uma sociedade sem escassez. A economia é um detalhe administrativo, pois a energia do Vril e a tecnologia dão jeito de cuidar de tudo. Papéis etários e de gênero são diferentes. O casamento é no começo da adolescência e são as moças que escolhem os seus pares. Depois de casados, quando atingem a maturidade, a vida é só paciência e pacificação, na esperança do fim dos dias. O enrosco do personagem central se dá quando a jovem mais poderosa daquele reino decide escolher o forasteiro como o seu parceiro de casamento, algo que geraria um cruzamento genético espúrio e indesejado. 

Há como perceber na obra influências de ideias e correntes de pensamento da época, como do darwinismo (evolucionismo), diria eu também do positivismo comteano, conforme observamos essa sociedade harmoniosa, liderada por um magistrado absolutista e ilustrado, baseada em compreensão e em amor. Confesso que percebi menos referências esotéricas e ocultistas do que estava esperando, pela fama do livro e do autor. Sabemos que a palavra VRIL, entendida como uma energia vital, será tratada no decorrer do século XIX e começos do século XX com um sentido objetivo e real, não como fantasia. Max Heindel, um dos mais destacados líderes do Rosacrucianismo, enxergava o domínio da energia VRIL (ou desse-se a ela o nome que fosse) como a mais nova revolução científica que estaria no limiar. Suplantaria a revolução da energia mecânica, da máquina a vapor, da energia elétrica e do éter. 

Não pode deixar de comentar como a temática do VRIL me lembra de William Reich e do orgônio, suposta energia (de origem sexual) que ele conseguiria controlar por meio de técnicas e aparelhagem específica (caixas de Reich). Devo também lembrar que a canalização de energia sexual é tema recorrente em sociedades esotéricas, em círculos maçônicos e druídicos. Supostamente isso esteve presente nos círculos fechados do III Reich. Supostamente também Hitler teria lido esse livro de Bulwer-Lytton e se inspirado nela para pensar e formular determinados aspectos e políticas do estado alemão para o Reich de mil anos. Me parece bastante nebuloso determinar quais são os reais limites disso no campo real e no campo da fantasia e das ilações livres. Demandará uma pesquisa que talvez eu possa fazer futuramente, indo direto em fontes bibliográficas pouco exploradas no Brasil, traduzindo textos do alemão, sobretudo. 

A conclusão que chego é que muito ainda pode ser escrito sobre as utopias e as sociedades secretas e esotéricas. Considere-se sempre que toda a rápida mudança que nossa civilização tem atravessado desde o fim da II Guerra Mundial é o resultado de uma guerra oculta travada entre sociedades secretas e grupos de poder, no centro do capitalismo financeiro e do socialismo. A hibridização entre financeirismo, monopolismo e socialismo é o Godzilla que está para destruir o mundo. Há ainda o aspecto do milenarismo que deve sempre estar presente em todas as discussões e debates acerca desses temas. Acredito que as crenças heréticas milenaristas podem estar no centro do movimento histórico reformista e revolucionário, com uma matização nem sempre tão clara e nem sempre tão definitiva, mas, ainda que de maneira assessória, é um elemento que precisa sempre ser considerado na história dos movimentos políticos do Ocidente, desde a Baixa Idade Média, pelo menos.

Edward Bulwer-Lytton


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

O desafio do estado

Vejo pelas redes sociais até hoje (e talvez ainda mais hoje) muita gente brigando para se mostrar mais ou menos de direta ou mais ou menos de esquerda e, alguns bem poucos, ao centro político.

Faz tempo que considero a simples divisão entre esquerda e direita como insuficientes para poder explicar a grande complexidade do mundo político.

Existem grupos políticos ou doutrinas políticas que, por certos aspectos, podem ser classificadas ora na direita, ora na esquerda. Vejamos os movimentos de perfil nacionalista do século passado. O nacional socialismo, o fascismo, o salazarismo, o franquismo, o integralismo, o peronismo, o varguismo e outros, mas paremos por aqui.

Na economia, o caminho que esses movimentos seguiram pode ser colocado mais à esquerda, sem contudo ser considerado marxista. No aspecto social, eles estão mais a direita, propondo a manutenção ou a restauração de aspectos morais e sociais que acabaram perdendo forças com as dinâmicas sociais do fim do século XIX em diante.

E mesmo entre eles as diferenças são muitas e inconciliáveis. Como associar o nacional socialismo com o integralismo? Um é racista, anti-miscigenação, anti-cristão, imperial. O outro é a favor da miscigenação, nada racista, católico ultramontano e municipalista. Apesar de poderem ser classificados dentre de um mesmo conjunto de movimentos políticos que possuem algo em comum (o repúdio ao liberalismo político e econômico e ao marxismo e a defesa do estado corporativo) ainda assim as diferenças entre eles são enormes.

Agora, no Brasil de hoje, o estado tem uma atuação ainda muito forte. Mussolini no Brasil seria um liberal! A carga tributária e a maneira como os impostos são arrecadados e gastos são vergonhosas. É uma verdadeira expropriação dos indivíduos e das empresas. Receio que nenhum dos regimes de tipo "fascista" tivesse uma arrecadação de impostos tão inadequada como essa que existe no Brasil. E a nossa esquerda fecha completamente os olhos para esse problema e só vê a completa espoliação como saída, inventando agora a descabida e ineficiente tributação de heranças e grandes fortunas (um ideário claramente marxista-reformista).

Não há jeito, o Brasil precisa acabar! O estado brasileiro é o maior promotor de injustiças desde Pôncio Pilatos!








quinta-feira, 27 de julho de 2017

Esoterismo e pensamento moderno

Estudando sobre o movimento da Escola Nova, muito famoso no Brasil por meio de Anisio Teixeira, responsável por uma série de reformas educacionais nas primeiras décadas do século passado, chego a Adolphe Ferriere. Este pedagogo suíço é considerado o principal pensador dessa corrente da educação no período e até hoje é uma referência nos cursos de formação de professores. Para minha surpresa, Ferriere foi amigo próximo de Karl Ernst Krafft, matemático e astrólogo também suíço. Kraft, por sua vez, ficou famoso por ser o "astrólogo de Hitler". 

É curiosa a aproximação que existe de vários campos do pensamento moderno e contemporâneo, com os diversos ramos e escolas do esoterismo. Muito mais eu poderia escrever aqui sobre isso, mas deixo esse apontamento como registro.

http://astrologianapratica.com.br/blog/krafft-o-astrologo-de-hitler/
https://fr.wikipedia.org/wiki/Adolphe_Ferri%C3%A8re

sábado, 19 de junho de 2010

Crime contra o espírito

François de Menthon

“Proponho-me a demonstrar-lhes que toda criminalidade organizada e sistemática decorre do que me permitirei chamar de crime contra o espírito, quero dizer, de uma doutrina que, negando todos os valores espirituais, racionais ou morais, sob os quais os povos tentaram há milénios fazer progredir a condição humana, visa a devolver a Humanidade à barbárie, não mais a barbárie natural e espontânea dos povos primitivos, mas a barbárie demoníaca, já que consciente dela própria e utilizando para os seus fins todos os meios materiais postos à disposição dos homens pela ciência contemporânea. Esse pecado contra o espírito é a falta original do nacional-socialismo da qual todos os crimes decorrem. Essa doutrina monstruosa é a do racismo. [...] Que se trate de crime contra a Paz ou de crimes de guerra, não nos encontramos diante de uma criminalidade acidental, ocasional, que os eventos pudessem, talvez, não apenas justificar, mas explicar, encontramo-nos sim diante de uma criminalidade sistemática, que decorre direta e necessariamente de uma doutrina monstruosa, servida pela vontade deliberada dos dirigentes da Alemanha Nazista.”

O turismo.

Qualquer governante que pensasse em fazer sua cidade, estado ou este país chamado de Brasil prosperar economicamente deveria pensar em turis...