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quarta-feira, 2 de julho de 2025

Uma sala, um sofá e uma poltrona.

Uma sala. Um sofá e uma poltrona. Um homem assiste atentamente ao noticiário internacional. Ao seu redor poucos elementos. Uma incrível ausência de cortina permite que meu olhar invada sua morada. Na garagem um Fiesta 98 e um jardim em sequidão. Em 2025, ver cena assim é um exercício de história comparada. É como em 95 assistir uma cena sobrevivente de 1965. Eu vi isso também. Casas com móveis azuis bebê, radiolas, enciclopédias nas estantes, tv de tubo com móvel de madeira. Via carros dos anos 50 e 60. Rural e Aero Willys. Impala, Dodges, Gordini, TL, Variant, "Zé do Caixão" e toneladas de Fuscas. O menino de hoje talvez me veja e pense: esse sujeito, entrando na igreja numa noite de quarta feira, com sua Bíblia de corte dourado, com tênis antigo, com cara de velho, um mané, um sujeito do passado, com seu carro também fora de linha. Mal sabe ele o que pode lhe esperar: ser julgado, avaliado e analisado por gente que ainda sequer foi parida. 

sábado, 19 de outubro de 2024

Cavalarias digitais

Se eu recuar dez anos no tempo, ok, quinze, era comum ver a cavalaria da polícia militar em uso, no centro da cidade combatendo em montaria aos manifestantes grevistas ou a extrema esquerda anarquista, black blocks, etc. Ou ainda nos estádios de futebol para dispersar multidões enfurecidas com seus times. É impressão minha ou hoje não vemos mais nada disso? Nem cavalos, nem grevistas, nem black blocks. Tudo, ou quase, está na internet. A repressão com cavalos estatais está nas redes sociais. É conduzida por um careca lá de Brasília.






segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O cenário eterno.

 Um amigo está se preparando para ir morar nos Estados Unidos. Seguindo o já manjado caminho de imigrante que vai com a cara e a coragem. Me convidou para ir junto e embarcar nessa aventura. 

Confesso que conhecer os Estados Unidos sempre foi uma ideia que rondou a minha mente com alguma recorrência. Nada de Nova Iorque, Miami ou Los Angeles, ou ainda Newark, lugar apinhado de brazucas por todas as partes. Me interesso pela América profunda, pela América branca que elegeu Trump presidente quatros anos atrás.

Cidades pequenas ou médias (ou mesmo grandes para o padrão americano, como Boston, Houston ou Atlanta) sempre me chamaram a atenção em filmes e seriados. NY? Já tenho São Paulo com a mesma cara. Prefiro a minha terra bandeirante mesmo.

Não sei se teria a coragem para emigrar. Não tenho o perfil de profissional que esses países precisam. Sou burocrata público e professor. Que faria na América? Jardinagem, garçom, carregador de caixas, pintor de paredes? Não se encaixa muito no meu perfil. 

São Paulo tem muitos defeitos e as soluções não se aproximam no radar: trânsito, transporte público deficitário, habitação, criminalidade, carestia e favelização. Tudo isso é real e uma realidade que compartilhamos com toda cidade média e grande do Brasil. 

Hoje ainda prefiro apostar no ritmo lento que a vida tem se encaminhado pra mim. A possibilidade de ascensão na carreira do funcionalismo, a chance de empreender um pequeno comércio. Comprar um apartamento pequeno e um carro seminovo. É aquilo que hoje se entende de classe média nesse país. E pensar que onde moro todos éramos de uma antiga classe média, de pais e avós funcionários de indústrias, que tinham uma renda e um poder aquisitivo bem maior para uma denominada classe média do que hoje uma dita middle class tem. 

Ao contrário dos ansiosos, que veem os dias se passando de maneira muito lenta, para mim, todo dia é como o outro e voa, passa como um conto ligeiro. Meu feriado de finados teve quatro dias e parece na minha cabeça que apenas o primeiro dia passou (quando, na verdade, o feriado começou na sexta e hoje é segunda a noite).

Fernand Braudel, o historiador das longas durações.

Já registrei aqui: a minha vida é marcada pela lentidão das decisões e das mudanças. Tudo é tardio. Exceto o tempo, pois esse passa muito rápido. Eu invejo quem consegue ver seu tempo passar mais lentamente. Três décadas já se foram. Muitos dias se passaram e as coisas, apesar de todas as mudanças e transformações parecem estar mais ou menos no mesmo lugar. O Diogo Mainardi fala que o Brasil é como um desenho da Hanna Barbera, onde só mudam as ilustrações dos personagens em ação, mas o fundo onde se passa é sempre o mesmo. A minha vida é como um desenho da Tartaruga Tuchê ou da Formiga Atômica, ou ainda do Pica Pau. Os episódios tem sempre o mesmo cenário: a mesma casa, as mesmas pessoas, as mesmas roupas, tudo é rápido em volta mas o cenário permanece lá, parado.

O amanhã será mais um dia. A próxima emenda de feriado já está na cara do gol. Tudo vai continuar se repetindo. É sempre o dia da marmota. Certo estão os historiadores que estudam as permanências e não as mudanças. Aquilo que dura vale mais do que o que se passa. O cenário é eterno. 

sábado, 17 de novembro de 2018

Farofa materialista

Verdade seja dita que de alguma forma os materialistas estão muito corretos. A influência de nossas condições econômicas e materiais são extremamente decisivas para a nossa psicologia, para explicar como reagimos a agimos diariamente.

Minha vida está associada, diretamente, com a criação que tive, e essa está totalmente ligada com as condições materiais que tive na infância, com o que me foi colocado a disposição, com os lugares que frequentei, com a cultura que absorvi da convivência nesses espaços e com tais objetos e pessoas.

Hoje fui ao Zaffari e fiquei pensando nas circunstâncias materiais das coisas. Comprei o que precisava e fui para o caixa. As atendentes ali costumam ser um pouco mais simpáticas do que as de outras redes do comércio em retalho. Pelo menos nos dão boa tarde ainda, coisa que anda ficando rara entre os atendentes de comércios em São Paulo, em nossos dias.

Pouco antes de terminar de passar minha compra que se resumiu em massa de pizza e bolinhos, a empacotadora do caixa ao lado derrubou uma sacola, com uma garrafa de azeite, que se espatifou pelo estreito espaço entre os caixas. Em um local de público seleto, olhava para a cara das atendentes e empacotadoras e via que ninguém sabia o que fazer. Acredito que eles esperavam que viesse uma bronca, alguma reação destemperada, grosseira. Felizmente nenhuma dessas hipóteses se concretizou. Pegaram a garrafa quebrada e a dispensaram no lixo e um gerente foi tomar outras medidas, fazendo aquilo que se espera de quem ocupa alguma função ou cargo de liderança.

A caixa que me atendia terminou de passar meus ítens, validei o ticket de estacionamento, paguei e, pouco antes de sair com as sacolas nas mãos, vejo que o gerente chega ao local do acidente, carregando um saco de meio quilo de FAROFA CONDIMENTADA! Abriu a embalagem e começou a jogar farofa sobre o azeite esparramado no corredor.

Não fiquei para ver o fim, mas sai falando com meus botões: "esse sujeito vai fazer uma macumba aí nesse lugar".

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Uma geração

Não consigo enxergar as pessoas da minha geração senão com tristeza, incluindo a mim nisso.

Não só pessoas da mesma geração, mas do mesmo extrato social.

Somos filhos da pequena classe média, cujos pais muito fizeram para nos ofertar somente o melhor, em matéria de estudos, preparo e de existência. Fomos todos criados com leite, pêra e Ovomaltine.

A expectativa era enorme. Seríamos uma geração que iria dar certo. A expectativa só se transformou em fracasso.

Comemos mal, vivemos mal, nos relacionamos mal. Temos empregos medíocres, formação de nível superior, estabilidade empregatícia, mas pouca felicidade real e duradoura.

Olhamos ao lado e vemos nossos pais indo embora. Eles nos olham com um ar ainda de esperança, da esperança de sermos felizes, bem sucedidos, ricos, plenos em saúde e bem casados. Nossos pais se foram e não viram isso sair da sua imaginação para a realidade.

Vamos ao mercado, compramos comida industrializada, congelados, comida pra cães e gatos. Olhamos preços, reparamos em embalagens. A compra parece ter saído de um filme americano, quando um personagem qualquer, também medíocre, vai ao 7 Eleven para pegar uns poucos ítens e cerveja e cigarros.

Saímos, voltamos aos nossos carros velhos e decrépitos. Comemos um chocolate. Olhamos aos jovens e pensamos "eu já fui inocente assim, já tive aspirações leves e puras dessa forma; por que virei isso?"

Se aqueles que hoje tem trinta anos, aos cinquenta tiverem mudado suas vidas eu ficaria muito surpreso. Não atoa somos a geração depressão. Não atoa tomamos antidepressivos, drogas, bebemos muito e fingimos muito uma sociabilidade que nos livra, momentaneamente, de nossa pequenez.

Escrevendo isso o meu coração só aponta pra um lugar, que nessa terra não se pode achar, mas aqui somos alcançados para em outra parte estar e gozar. À quem tiver a mesma sensação terá a sua desesperança diminuída.

Grosser Gott wir loben Dich