Existem alguns cenários que são permanentes na história política do Brasil. O patrimonialismo, como estudou Raymundo Faoro, é um deles. Outro fato permanente dessa história é a influência da casta militar, por vezes nas sombras, por vezes na superfície da política.
Um dos grandes nomes da ação militar sobre a sociedade e a política, o general Golbery do Couto e Silva, afirmou que "O Brasil é um país condenado à grandeza". O emprego da palavra "condenado" é corretíssima. Este é um país condenado, tal como é alguém que tem gigantismo ou elefantíase. Até agora esse paciente não pode ser curado dessa enfermidade.
Na análise geopolítica histórica da América Portuguesa, o general Oliva aponta para a relevância da bacia do Prata, como um enfoque que o Brasil precisou ter, para que não perdesse ascensão sobre essa região, considerando a influência dos demais países que tem esse país como sustento da sua vocação de poder, cito a Argentina, Uruguai e, menos, o Paraguai. Aqui a história completa nos oferece uma informação melhor: não é o Brasil um país da bacia do Prata, mas, São Paulo, pois desde o período dos Bandeirantes nós buscamos um intercâmbio com o vice-reino do Rio da Prata. Não era algo cabível falar em Brasil naquela altura. São Paulo existia e era reconhecido como um estado de per-si. O Brasil não. A ideia de um Brasil na bacia do Prata só faz sentido pós II reinado. Vejo que o problema da Cisplatina se deve também a isso, no fundo. O fim do bandeirismo fez com que as relações lusoamericanas com o Prata perdessem força. Lusoamericanas, leia-se Paulistas. Eram os Paulistas que tinham um excelente trato com os espanhóis e criollos. Se a América Portuguesa pretende se integrar ao Prata de verdade, precisa conceder autonomia para que São Paulo conduza soberanamente esse processo. Todas as bacias hidrográficas induzem à separação do Brasil. O general Oliva concordaria comigo. Os rios não permitem a integração regional, antes estabelecem divisas.
Essa longa permanência da influência politica dos militares poderia ser rastreada mais longe, mas, prefiro situá-la na Guerra do Paraguai. Este conflito foi a causa da verdadeira ruína do II Império. Sem a guerra, os militares não teriam obtido proeminência e destaque. E não teriam se irmanado com negros nas trincheiras. O sentimento de irmandade entre estes não teria se formado. Essa irmandade é um verdadeiro patriotismo de irmãos de arma. Sem esse cenário sentimental, a escravidão teria persistido mais ou os fazendeiros teriam tido mais forças para brigar pela manutenção do sistema escravista. O modelo econômico -- atrasado, aliás -- poderia ter persistido. Só São Paulo estava melhor preparado para enfrentar a necessidade de um novo modelo econômico, assentado na imigração e no trabalho assalariado, pois assim já vinha começando a fazer, considerando suas necessidades de mão de obra, frente à expansão da lavoura do café. A providência leva São Paulo sempre na vanguarda da transformação social.
"Muitos fazendeiros, revoltados, expulsaram-nos das fazendas, Outros buscaram mantê-los pelo teto e pela comida. Outros pagaram-lhes algum salário como concessão. Na verdade, a maioria dos fazendeiros não estava preparada para a situação nova, tanto econômica quanto psicologicamente, à exceção da maioria dos fazendeiros paulistas, que, por seu governo, contratara italianos para a lavoura e já se acostumara com o pagamento da mão-de-obra rural." (pp.37)
Com a república, puderam os militares ocupar a presidência da república em várias ocasiões. A república, é preciso relembrar, nasceu como um golpe e uma ditadura militar. 1889, um golpe dado por Deodoro da Fonseca derrubou o decrépito imperador Bragança. Pós Deodoro, foi consolidada a república pelo alagoano Floriano Peixoto, o "marechal de ferro". Os militares, porém, sabem que apesar de serem uma constante no poder, ora ocupando ele diretamente por meio de cargos políticos, ora atuando nos bastidores, precisavam fornecer uma aparência de democracia, como o ocidente civilizado faz questão de cobrar do mundo. Foi a presidência passada aos fazendeiros, a elite econômica, que contou com a anuência dos militares para estar no poder. No fim, quem tem as armas nas mãos e tem o poder sobre a vida e a morte detém todo o poder possível, caso queira empregá-lo. Todos os demais poderes, econômico, midiático, judiciário, burocrático, é uma concessão da força bruta controlada.
O estado brasileiro, especialmente, durante os períodos de ditadura, mas, é evidente, não só neles, soube operar psicologicamente, sobre a população por meio da comunicação de massas. Foi durante a ditadura de Vargas, com o DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda e com a televisão durante da ditadura militar que o estado fabricou os elementos básicos da identidade brasileira, a chamada brasilidade. O samba, o futebol, a cachaça, a mulata, a miscigenação, a integração nacional, a queima das bandeiras, a obrigação de símbolos nacionais de forma sistemática, não natural ou orgânica. O que intelectuais civis e militares pensaram sobre a formação e construção da identidade nacional brasileira, o estado executou com excelência. A ideia de unidade nacional, eu considero, é a suprema razão de ser das forças armadas brasileiras.
Este livro do general Oliva é muito bom. No que se propõe a tratar de análise e propostas é factível e realista. Só não é realista ao ignorar o PT na história. Livro publicado em 2002, cita no final a Rodésia como possível parceiro internacional do Brasil. Talvez seja um apanhado de coisas escritas ao longo de sua carreira. Talvez seja só confusão. Não saberemos a resposta. Mas, ignorar o petismo tem explicação. Esse seria o primeiro general do petismo ou tivemos outros que eu ainda não conheci? Bom, relembremos que exista quem diga que o Lula é uma cria do Golbery para queimar o Brizola. Me parece que o Brizola cria nisso, mesmo que tenha sido vice na chapa do sapo barbudo, em 1998.
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