segunda-feira, 31 de março de 2025

Uma historiografia das épocas

Cada período escreve a sua história dando ênfase na inquietação daquele momento. A observação é do professor Hilário Franco Júnior, no livro A Idade Média, nascimento do Ocidente. Ele aponta: a pólis grega marcou com o aparecimento da história política; a idade média em seus mosteiros preparou as biografias de santos, as hagiografias; a afirmação dos estados e monarquias nacionais no século XVIII trouxe a história dinástica e nacional (comento: e o século XIX, antevendo a crise dessas monarquias, com o romantismo, buscou reforçar essa identidade nacional); por fim, no século XX de esperanças utópicas (socialistas e liberais-democráticas) o estudo da história das mentalidades. 

E a história do tempo presente, da geração do novo milênio? Me parece ser a geração da história da loucura, da desorientação planejada e mesmo da história da indecência. 

A linha de pesquisa do historiador é uma afirmação do seu entendimento final de sua época sobre si mesma ou sobre outro período. Como vivemos tempos anarquicos e dementes, somente uma historiografia da indecência e da loucura poderia ter voz forte. 

sábado, 8 de março de 2025

O presidente eventual

"O "Diário" informa que o presidente eleito comprou um sobrado em frente da casa de sua família, onde morou nos últimos quarenta anos. A reportagem apurou que o presidente eleito tem a intenção de fixar morada eventual na nova casa, já que Brasília o mantém longe de sua rotina diária, que inclui a convivência com seis gatos e uma igreja, onde frequenta semanalmente. Para a capital federal ficarão reservados no máximo dois dias por semana. A vontade do presidente eleito é que seu mandato fique marcado como o mandato em que o presidente mais tempo passou longe do palácio.".

Uma morada de infância

 Esses dias resolvi com a minha mãe, aproveitando a calmaria do feriado de carnaval, ir passar em frente de duas casas onde moramos nos anos 1990. Uma delas, pelo que pude ver pelo satélite do Google Maps ainda está lá. Como ficava nos fundos de uma casa principal, ela não pode ser vista da rua. Quando lá morei, a casa principal era sede de uma firma de BATATAS FRITAS. Sim, uma empresa que cortava, fritava e embalava batata frita, dessas tipo Lays ou, mais bem comparando, aquelas batatas que se vendem nos carrinhos de pipoqueiros. Cresci vendo durante vários anos o funcionar daquele pequeno engenho. 

Eu não me queixo disso da minha infância. Ao contrário, tive uma infância maravilhosa. No terreno ao lado de nossa casa, que foi desmembrado nos anos 2000 e uma enorme casa, um verdadeiro mausoléu de cinco quartos e vários banheiros foi erguido, naquela época abrigava várias árvores frutíferas como mangueiras e jabuticabeiras. Também criávamos galinhas e, se a minha mente não me engana completamente em um surto de megalomania, chegamos a ter até um leitãozinho. Era uma área enorme, uma chácara de perímetro urbano. Aliás, nos bairros mais afastados de São Paulo vi muitos terrenos enormes como esse, que eram do porte de chácaras. Hoje são raríssimos, considerando as invasões e a expansão imobiliária. 

Paramos em frente e ficamos olhando pela grade. Os dois lotes e suas construções não tem moradores, mas, não estão abandonadas. Nota-se que há ainda cuidado com a limpeza periódica e o mínimo de manutenção. 

A casa mais antiga é um exemplar de uma outra era. Tem um oratório na parede frontal da residência, grade baixa, forro de estuque reparado em alguns trechos com forro de pinus. Piso de caquinho vermelho na garagem e áreas externas e vermelhão na sala. Um jardinzinho limpo, igual me lembrava de 1997. Até uma assustadora aranha grande pendurada em sua teia no beiral. O lugar está parado igual quando eu sai de lá em 1999. Nessa parte nada mudou. Está há 26 anos estacionada no tempo.

Já ao lado, o terreno gigantesco já não está mais livre. O mausoléu está sobre ele. Subsiste uma mangueira de bom porte rente ao muro da frente. O portão de madeira que viu meu tio Leonel pular com medo do falecido cão "Roliço" também não existe mais. No local um muro e outro portão de metal. 

Tudo o que existe se muda constantemente. É física. Por mais que tenhamos a impressão de que muitas coisas possam estar iguais, na verdade, é óbvio, elas só se parecem iguais. 

Na minha mente essa casa era ainda maior do que a que eu pude visitar nesse carnaval.

Eu era pequeno e aquele terreno enorme era uma fazenda para mim. Ter tido a chance de ter a infância que tive é razão para agradecer à Deus por esse privilégio. Não sei se uma infância em um apartamento de 40 metros quadrados tem o mesmo sabor. É possível que não, apostaria. 

sábado, 1 de março de 2025

Curtas

 Li esses dias que há milhares de vagas de emprego no setor supermercadista de São Paulo, mas existe uma dificuldade gigantesca em suprir essas vagas, pois, considerando a remuneração baixa que é ofertada, o trabalhador em potencial desse ramo de atividade prefere manter-se na informalidade, juntando a grana que faz com bicos com o dinheiro que o governo lhe dá, via Bolsa Família. Eis ai um exemplo vivo de como a interferência do estado na economia é, quase sempre, fonte da criação de distorções piores do que a sua inação geraria. Estamos diante de uma geração de gente que se acostumou a comer das mãos do governo, a esperar que tudo venha do estado, que o poder público onipresente resolva todos os problemas da sua vida, seja a cura de um câncer, uma unha encravada ou a educação de sua prole. Não tardará e surgirá um vale ou bolsa cabeleireiro, bolsa manicure, bolsa cílios e sobrancelhas, etc. E o povo continuará esperando sempre mais e mais benefícios estatais. Horda de inúteis. Precisamos voltar ao darwinismo social. 

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Tenho a mente inquieta com a criação de projetos. Projetos com os quais eu não tenho nenhuma relação ou ligação direta. Planejo cidades, bairros, linhas de ônibus, projetos de infraestrutura industrial, reformas de igrejas, criação de empresas e comércios. Nada do que planejei nesses campos, desde a infância até a presente meia-idade jamais esteve perto de se realizar e, fatalmente, até o findar do meu labor nesta vida, jamais estarão. Sou tão maluco que planejo uma reorientação geopolítica da América do Sul, pregando a dissolução do Brasil enquanto estado nacional e a criação de novas repúblicas independentes menores, se bem que neste caso particular, há um enorme grupo de pessoas que também planeja isso e se articula para que um dia a realidade geopolítica sul-americana e mundial assista o nascimento das novas repúblicas soberanas da América Portuguesa. Essas ideias jamais me causaram qualquer prejuízo. Entendo que são positivas. São o resultado da fertilidade da minha imaginação. Tolkien criou o mundo do Senhor dos Aneis. Eu tenho um mundo novo criado todos os dias na minha cabeça, que, invariavelmente, se passa na cidade de São Paulo. Ao menos, está na porta de casa.

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Lutero deu o exemplo. Estando em uma igreja, não sendo possível reformá-la, como era seu intento original, é melhor apartar-se dela. Os protestantes, no geral, entendem bem essa lógica. Não todos. Na Congregação tem existido um fenômeno desde os anos 2000, que é a saída ou afastamento compulsório de pessoas da comunhão da igreja, mas, por rancor, essas pessoas fazem de sua profissão de fé o maldizer da antiga denominação. Tivessem sabedoria sairiam e buscariam alguma outra denominação, onde a sua visão de cristianismo estivesse mais bem acolhida, ou ainda, caso fosse, que criassem uma nova denominação. Mas, nem uma coisa nem outra. A fé dessa gente é malhar a velha casa. Agora, um sujeito recentemente expulso, por negar disciplina e o código de ética do corpo ministerial, está se vendendo como vítima. Tem método, não humano, mas do adversário nisso aí. Colocar é fácil, difícil é tirar do ministério.

Fui enganado pela cientologia.

 Em 2009 publiquei aqui neste blog um comentário sobre um material de divulgação da cientologia, crença esdrúxula do movimento da Nova Era, sem saber que se tratava de material da cientologia. Na época, com 19 anos, eu já sabia o que era essa religião, pois na tv já havia visto reportagens e documentários, provavelmente na tv a cabo, Discovery Chanell, na época, um excelente canal (hoje, não sei nem se o canal ainda existe, deve existir).

LUSOSP: Doutrinação automática

Mas, o que penso aqui, 16 anos depois, é o quanto nós podemos ser facilmente enganados por uma "embalagem" cristã das coisas. É mais ou menos como ser enganado pelo espiritismo. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A Europa recristianizada

 A Europa precisa de um grande avivamento, ou a veremos caída novamente nas mãos dos mouros bárbaros, como estava, até o século XV, século em que findou a reconquista da Península Ibérica. Infelizmente, neste mesmo século, Bizâncio veio cair no domínio turco. Uma pena. Algo que um dia terá que ser revertido. 

Mas, o avivamento a que me refiro é prioritariamente espiritual. A Europa é um continente de ateus. Mesmo na Europa Latina e meridional a coisa não vai nada bem. A Igreja Católica está cada dia mais desacreditada, resultado de variados fatores, entre os quais a epidemia de pedofilia e homossexualidade entre o clero (a corrupção do clero, do qual o Dr. Martinho Lutero já alertou, há um pouco mais de 500 anos). 

E, por falar em Lutero, o protestantismo na Europa se transformou em uma religião inexpressiva. No Reino Unido o Anglicanismo, crença belíssima por reunir a dogmática evangélica e a beleza estética e litúrgica da tradição católica, está tão ou mais apodrecido de que a própria Igreja Romana. Adotou o antibíblico episcopado feminino. Ordena homossexuais declarados para o seu clero (algo que também acontece, mas de forma velada, na Igreja Católica). Trata-se de uma denominação que trouxe o mundo para dentro de si e substituiu a doutrina cristã por ideologias pós modernas. Pensavam assim atrair as presentes gerações pervertidas. Não só não atraíram, como espantaram as velhas gerações de pessoas normais. 

Na Europa continental, o luteranismo perde relevância em todos os países em que foi predominante, incluindo a Alemanha -- o seu berço, e nos países nórdicos, onde é ainda, para todos os fins, religião oficial de estado. Padece, um pouco menos, é verdade, dos mesmos estigmas que o anglicanismo.

Os Metodistas, Calvinistas, Valdenses, Morávios, Pietistas e outros protestantes oriundos do movimento reformado, em maior ou menor grau, estão amarrados nos mesmos problemas. Acompanho pelas redes igrejas valdenses italianas que tem pregação abertamente antropocêntricas, onde Cristo é um adorno para um discurso de revolução social, onde o paraíso a se construir é na própria terra, por meio de justiça social e combate ao capitalismo. É a mesma ladainha da teologia da missão integral/teologia da libertação. 

Insisto, a decadência europeia, vista à quilômetros de distância, não é só espiritual, mas está é a primeira e mais importante dimensão desta crise. E é por ela que o velho continente precisa começar a resolver os seus problemas.

Um avivamento tem como um de seus pilares o reconhecimento dos erros da igreja (comunidade) até aquele momento e, com o arrependimento e a contrição, com um imenso fervor, recebe a mercê divina, uma bênção especial, que faz o estado de dormência de até então seja superado por um êxtase renovador, restaurador, capaz de dar movimento às coisas paradas, de unir carne e nervos aos ossos secos. Penso que esse renovo causado pela dispensação divinal só pode estar presente no seio do protestantismo (ou ainda de setores da Igreja Romana que tenham se protestantizado), mas, Deus tem as suas escolhas e, mediante a contrição do Seu povo distribui os seus dons e causa o avivamento onde melhor aprouver. 

Mas, sociologicamente pensando, é a variante pentecostal do protestantismo a mais propensa em promover um movimento de renovação e avivamento na Europa. O pentecostalismo não é frio, é vivo, é crente no poder total e absoluto do Deus trino. Crê absolutamente no transcendente, no poder total e operante de Deus. Na cura divina, na libertação, na batalha espiritual, na ação divina para restaurar famílias e para expulsar os demônios. E o que o velho continente mais precisa é de uma nova era de crença no transcendente, no espiritual, uma era onde o materialismo e o relativismo sejam abandonados em favor do absolutismo da ação divina potencial, do seu poder irrestrito, de sua ação direta em todos os campos da vida humana. Uma restauração de Deus na história do tempo presente como o protagonista da história. 

É isso ou a Europa será devastada. 

Quem poderá iniciar esse processo são os missionários dos principais países pentecostais do mundo: Estados Unidos e Brasil. Donald Trump deveria colocar a máquina do governo americano para promover um lobby que abrisse portas para esse movimento missionário de recristianizacão europeia. Um eventual novo mandato de Jair Bolsonaro também deveria ter um mesmo propósito. Por mais que figuras como Michele Bolsonaro não tenham grande relevância cultural ou intelectual, representa a ex-primeira dama um portento da frente pentecostal. A substituição do marido por ela na corrida pela presidência traria um grande ganho ao movimento social do pentecostalismo.

Pensar no futuro da Europa é resguardar a fonte da nossa cultura. O desafio religioso europeu é primeiramente a sua reconquista para o Cristianismo mágico e para o absolutismo divinal na história e na sociedade. Faça isso e os maometanos se curvarão. 




segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Curtas

 Na Inglaterra, dizem as notícias, grande está a pressão sobre o premiê Keir Starmer, do partido trabalhista (a esquerda de lá). O motivo: seu governo tem sonegado o grande número de paquistaneses que formam gangues para estuprar meninas e mulheres brancas (o detalhe racial é essencial). A razão da sonegação é para evitar uma onda de islamofobia na Inglaterra.

Tenho pra mim que a Europa, no geral, e em especial, os países da banda ocidental, estão todos de quatro socialmente perante a invasão de hordas do terceiro mundo, da África e do Oriente. O europeu não tem mais filhos. A economia europeia é baseada somente em arrolamento de dívidas. O europeu se tornou indolente e folgado, não é mais laborioso. A organização social europeia está claramente ruindo aos nossos olhos. Que destino, homem branco! Fruto de suas escolhas, quase um século atrás, quando preferiu as cantilenas liberais e socialistas. A Europa é um continente de ateus. O europeu não quer saber mais de religião cristã. Não adianta mandar para lá missionários das Américas, porque o europeu está com seus ouvidos tapados para as verdades evangélicas. Os países europeus cairão um a um, primeiro os do oeste e, depois os do leste, daqueles que não se protegerem dos vírus liberais e ateus (a Hungria, provavelmente, deve ser uma ilha de resistência, outros dizem o mesmo da Polônia, mas duvido).

A Inglaterra se quiser ser restaurada não precisa de um gás vindo da monarquia, antes precisa de um novo Lord Protector, Oliver Cromwell. Ele sepultará a decrépita e traidora família real (liberal e  muçulmana) e colocará os imigrantes para fora do país. Promoverá uma imigração selecionada de países claros, de populações cristãs e bem formadas e preparadas para o mercado de trabalho. É isso ou nada. É isso ou não existirá uma Inglaterra cristã ao dobrar o limiar do próximo século. Não é ruim que sírios ou iraquianos cristãos emigrassem para a Inglaterra. Não teriam dificuldades de se tornarem autênticos ingleses em meia geração. Esse é um repovoar certeiro e possível. Barrar o islã, o indostanismo e o africanismo é urgente.

***

O Governo do PT está alardeando, via imprensa comprada, que o Brasil voltou a ser um país de renda média. Ou essa turma do jornalismo está usando drogas mais pesadas do que o habitual ou está chovendo dinheiro, como nunca, na cabeça dessa gente. Nunca se viu tantas pessoas morando nas ruas. As esquinas de São Paulo estão repletas de drogados zumbis. O Brasil tem milhões de sustentados pelo estado, que passam o dia coçando o rabo sem perspectiva nenhuma de reingressarem no mercado formal de trabalho. Os preços nos mercados são exorbitantes. Nem a classe média real, gente que tem lá a sua renda per capita por volta dos r$ 3.000,00 vive com luxos. Qualquer carro 1.0 sem ar condicionado custa r$ 80.000,00. O brasileiro não come carne ou lácteos todo dia. Ainda assim essa raça maldita do governo quer dizer que o Brasil é um país de classe média e renda média? Por isso eu defendo o fim do Brasil. O brasileiro merece alguém pior que o Lula.

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E se preparem, faz tempo que tenho alertado à algumas pessoas que o Brasil vai passar por uma bolha imobiliária muito forte. A cidade de São Paulo é um grande canteiro de obras. São centenas de empreendimentos imobiliários de prédios subindo, seja para uso residencial, seja para uso comercial. A economia não cresce para acompanhar esse ritmo de construção, absolutamente inflado pelo governo, por meio da Caixa Econômica, que financia essas construções. É muito difícil que a população pobre possa comprar um simples apartamento (ou apertamento) de 37 metros² sem direito a vaga de garagem. Restam as favelas, as invasões, os loteamentos clandestinos do PCC nas áreas de mananciais ou nas franjas do município. Ou sobra o aluguel, que não é barato para a renda média real do país (para a renda oficial do governo do PT o assalariado vai pra Disney todo ano).

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Pela cidade

 Pirituba, Jaguaré, Vila dos Remédios, São Domingos, Perús, Taipas, Vila Maria, Vila Medeiros, Tremembé, São Mateus, Cidade Tiradentes, Itaim Paulista, Penha, Vila Formosa, Teotônio Vilela, enfim, cito alguns distritos da cidade de São Paulo onde jamais coloquei os pés para quaisquer fins de natureza econômica ou material. Nunca fui procurar emprego, nunca fui no médico, nunca foi em uma palestra ou curso ou fui em algum comércio necessário nessas localidades. Todas elas ficam dentro da cidade de São Paulo. E mais, excetuando-se a Penha, onde fui algumas vezes nos últimos dez anos na igreja (portanto, um único endereço), de resto, praticamente não piso nesses lugares. Tenho dúvidas, inclusive, se já fui em Taipas ou na Vila Medeiros. 

A cidade de São Paulo é enorme. Está comunicada por uma extensa rede de transporte público, ônibus, trem e metrô. Circula-se livremente ainda em todas as regiões da cidade, inclusive aquelas mais perigosas. Claro, não vai entrando em uma viela qualquer no Jardim Angela, no Suvaco de cobra (Jardim Miriam) ou no Jardim Helena se você não for em um lugar muito específico dentro de alguma dessas favelas. De preferência, já esteja combinado com quem vai te receber. Nesses cantinhos andar em São Paulo talvez seja quase tão perigoso como andar no Rio de Janeiro, quiçá até mesmo em Salvador. Ainda assim, não troco as favelas paulistanas, as quais algumas já tive a necessidade de andar e não me senti intimidado. 

Não me consta que um dia na minha vida eu tenha ido até o Jardim Britânia, onde há um terminal (de quem deve ter sido a brilhante ideia de criar um terminalzinho ali? - Imagem fonte.)



Muitas vezes passeei de ônibus pela cidade. Sai sem um destino exato, pulando de terminal em terminal. Indo do Terminal Santo Amaro até o Terminal Praça Princesa Isabel (aliás, esse terminal será consumido pelas obras do novo palácio do governo que o senhor Tarcísio de Freitas está querendo construir nos Campos Elíseos? Talvez o terminal seja o ambiente mais salubre e civilizado de toda aquela região.) Do Terminal Praça Princesa Isabel pegava um ônibus até o Terminal Cidade Tiradentes e dali pegava o trólebus, passando por todo ABCD até chegar no Jabaquara, passando pelo corredor Diadema - Berrini, descendo na Avenida Santo Amaro ou, do Jabaquara pegando um ônibus de volta para o Terminal Santo Amaro. Já fui no Terminal Cachoeirinha, saindo do Largo do Paissandu, apenas para ver o terminal. Desci lá, fui no banheiro, olhei dois minutos e já embarquei de volta para outro local. Na verdade, terminais de ônibus não tem muita coisa a oferecer. 

Conheço a maioria dos terminais da cidade de São Paulo: Parelheiros, Varginha, Grajaú, Santo Amaro, João Dias, Capelinha, Campo Limpo, Amaral Gurgel, Praça Princesa Isabel, Parque Dom Pedro II, São Mateus, Vila Carrão, Cachoeirinha, Casa Verde, Bandeira, Pirituba, Cidade Tiradentes, Mercado, Pinheiros e Lapa. Há dois terminais bem próximos de onde moro e que passo em frente com alguma regularidade (de carro) e nunca andei neles: o Guido Calói (anexo aos fundos da Estação Santo Amaro do Metrô) e o Guarapiranga. Aliás, não sei se o Guido Calói é considerado terminal pela SPTrans.

Isso aqui era o Terminal Largo da Batata, em Pinheiros, no final dos anos 1990. Hoje a região ficou muito valorizada e é frequentada essencialmente por moleques maconheiros.


quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Os rumores silenciosos

Entre aqueles que são envolvidos no meio eleitoral, seja trabalhando para partidos políticos ou candidatos, seja o pessoal dos institutos de pesquisas de opinião ou ainda a imprensa, há uma expressão que, volta e meia, retorna durante uma discussão. Trata-se do fenômeno do "voto envergonhado".

É possível definir o fenômeno do voto envergonhado como aquele em que o eleitor não se manifesta à favor do candidato durante o período de campanha, não dando sinais de que irá votar naquele candidato que não tem apreço de parte das pessoas do seu convívio, porém, no secreto da urna, o eleitor deposito o seu voto naquele candidato pouco apreciado pela opinião pública. 

Eu diria que o voto envergonhado é aquele praticado pela extensa maioria da população.

O histrionismo por parte do eleitor está longe de ser novidade e é quase um sinônimo de eleições feitas para o homem massa. Os histriônicos sempre tereis no meio de vós! Ainda assim, ele não é o responsável solitário por viradas de votos. O voto é algo, normalmente, bem consolidado, pelo menos para cargos do executivo. O eleitor matuta em silêncio a sua preferência, vai lá e deposita com certeza. O mesmo não ocorre para cargos legislativos, onde a escolha é geralmente bastante irrefletida, quando não aleatória. Como mesário e depois assistente da justiça eleitoral pude ver várias vezes homens e mulheres catando um santinho na calçada para definir em quem irá votar, dois passos antes de entrar na escola. E ainda querem dizer pra mim que o voto não devia ser facultativo. Eu defendo que ele seja facultativo e censitário, não pela grana, mas pelo estudo. Tem determinado grau? Vota para vereador. Tem determinado outro grau? Vota para o resto. Como eleger juízes ou xerifes com uma massa de eleitores que vota drogada, bêbada ou simplesmente ignorante e fraca da cabeça? O poder não pode estar nas mãos da ralé. E nossa elite é uma ralé também, assinale-se.

Hoje tive um sonho lúcido, bastante lúcido. 

Me vi em algum lugar do centro de São Paulo, como perto de algum beco no Brás ou nos Campos Elíseos, sendo acossado por uma turba de vadios insidiosos, uns com caras de drogados, outros de pilantras e golpistas. Me cercaram e, ao me desdobrar tinha em mãos um microfone e uma caixa de som. Eis que quando eu começava a proferir um incisivo discurso falando em resgatar São Paulo de volta aos paulistanos, limpando a cidade dos vagabundos que nos cercam, vi que os meus inimigos se dispersavam e algumas pessoas, idosos simples, pessoas humildes olhavam aquele bravo discurso, como se fosse do Ulisses Guimarães, do Franco Montoro ou do Mário Covas na campanha das Diretas Já, na Praça da Sé. Passado rapidamente o perigo eminente, uma e outra pessoa parava ao lado e cochichava: "olha, parabéns pelo seu discurso, nós precisamos mesmo resgatar São Paulo para nós". 

Tomo o desfecho desse sonho como uma analogia ao caso do voto envergonhado.

Todo discurso político que seja considerado reacionário e radical, no sentido da restauração de uma ordem preexistente, tem acolhida, ainda que sorrateira e escondida, entre boa parte da população. Aquela frase sobre o triunfo dos maus quando os bons não se manifestam passa a fazer ainda mais sentido. 

São Paulo foi invadida no século XX, especialmente a partir da década de 60, quando o tipo de migrante e imigrante que passamos a receber passou a ser a escória de outras partes, em grande parte (não na totalidade). Escória não em termos como os mais pobres ou mais simples, mas os piores, mesmo. Aqueles que tem os piores costumes, os piores hábitos, fugitivos não da seca, mas do trabalho firme, gente que procurava aqui um troquinho mais fácil para gastar em festas e bebidas ou drogas. E é assim que as favelas se tornam um tormento para o sujeito que é miserável materialmente e que precisa ali viver. Tormento dos tormentos deve ser para um trabalhador, uma mãe de família pobre que precisa conviver com a escória que se embebeda, se droga e faz farra todo o dia. Para esse trabalhador e trabalhadora decente, honesto e honrado eu desejo toda a sorte do mundo, independente de sua origem natalícia e que ele venha a prosperar materialmente e possa sumir do convívio grotesco dessa ralé, que por razões econômicas, ele é obrigado a conviver. 

A ralé precisa ser domada, adestrada, pelas duas mãos do poder. A mão do estado, cuja fiscalização sobre o descumprimento de normas de postura deve ser severo. Severo com o pichador pego, severo com quem joga lixo em local inadequado (não só o papel de bala ou a bituca de cigarro, mas os indecentes que largam sofás velhos em esquinas ou os jogam dentro de córregos), severo com quem ouve música alta e perturba o sossego alheio. Severidade no combate à violência de todo o tipo. A outra mão, a do mercado, que pode criar valor forçando hábitos de consumo que alterem determinados padrões entre essa massa. O estado e o mercado são criadores de valores. A primeira mão, a do estado, se quiser, é a mais forte nesse jogo, sobretudo se o cérebro que comanda a mão tiver clareza de propósito (coisa que hoje falta). 

São Paulo precisa ser limpa, renovada, reurbanizada, requalificada. A preocupação ambiental urbana precisa ser levada à sério. Não pode ser aceitável que as nossas represas, rios, riachos e córregos sejam somente esgotos à céu aberto. Não se pode aceitar que nada seja feito porque temos favelas ou outras construções nas margens desses mananciais. O estado tem que planejar uma saída firme para isso, com respeito às pessoas, mas pensando na cidade. O invasor de terras, que foi beneficiário de programa público de moradia não pode ser tratado senão como pilantra, caso volte ao estado pretérito de onde foi tirado. É uma maneira de se aproveitar da coletividade. Inúmeros são os casos de pessoas que receberam um apartamento da CDHU ou COHAB e os venderam para então retornar para as favelas, torrando o dinheiro com futilidades. 

Ensinar educação financeira nas escolas é essencial. Não só sobre a virtude da poupança, o que é muito difícil em um país de baixíssima renda, como é o Brasil, mas também ensinar sobre o cumprimento das regras e posturas. Sem isso, não é possível fazer a reforma saneadora que São Paulo merece. Enquanto houver impunidade para invasor, São Paulo será terra sem dono. E, digo mais, os contrários que façam o favor de se botarem pra fora daqui.

Tudo o que aqui está dito ecoa pela cidade. Ainda que seja um eco inaudível. Mas haverá um dia em que esse rumor será ouvido em toda parte com forte alarido e São Paulo se reerguerá e será limpa em definitivo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Bla bla bla

Minha mãe fala, religiosamente, todas as noites com um sujeito que eu reputo por "Professor Girafales", sem ser professor de absolutamente nada, mas, assim como o personagem visitava todos os dias Dona Florinda, de igual forma esse outro energúmeno liga todos os dias para minha mãe. Não há assunto que seja digno de qualquer observação mais atenta. Todos os dias, anos a fio, amenidades. Esse tipo de comportamento me é completamente incompreensível. Não consigo pensar na hipótese de ter que falar pelo telefone com a mesma pessoa por tanto tempo, sem ter assunto nenhum que valha a pena. Isso me leva a refletir na seguinte situação: chego a ficar horas e horas a noite sem falar uma só palavra. Embora tenha a companhia da minha mãe sempre em casa, normalmente não falo muito depois das dezenove horas. Gasto esse tempo lendo ou no Twitter. Melhor empregado esse tempo seria se apenas fosse gasto em leituras e não em uma ou outra rede social. Mesmo assim, ainda considero mais útil e tranquilo do que ter que ficar falando trivialidades pelo telefone. Eu passo fácil pelo desafio de ficar calado. E olha que sou até muito comunicativo. 

sábado, 19 de outubro de 2024

Cavalarias digitais

Se eu recuar dez anos no tempo, ok, quinze, era comum ver a cavalaria da polícia militar em uso, no centro da cidade combatendo em montaria aos manifestantes grevistas ou a extrema esquerda anarquista, black blocks, etc. Ou ainda nos estádios de futebol para dispersar multidões enfurecidas com seus times. É impressão minha ou hoje não vemos mais nada disso? Nem cavalos, nem grevistas, nem black blocks. Tudo, ou quase, está na internet. A repressão com cavalos estatais está nas redes sociais. É conduzida por um careca lá de Brasília.






Uma historiografia das épocas

Cada período escreve a sua história dando ênfase na inquietação daquele momento. A observação é do professor Hilário Franco Júnior, no livro...