domingo, 8 de fevereiro de 2026

A longa permanência militar.

Existem alguns cenários que são permanentes na história política do Brasil. O patrimonialismo, como estudou Raymundo Faoro, é um deles. Outro fato permanente dessa história é a influência da casta militar, por vezes nas sombras, por vezes na superfície da política. 

Um dos grandes nomes da ação militar sobre a sociedade e a política, o general Golbery do Couto e Silva, afirmou que "O Brasil é um país condenado à grandeza". O emprego da palavra "condenado" é corretíssima. Este é um país condenado, tal como é alguém que tem gigantismo ou elefantíase. Até agora esse paciente não pode ser curado dessa enfermidade. 

O general Oswaldo Muniz Oliva, Paulista de Santos, é pai do ex-senador e atual presidente do BNDES, Aloízio Mercadante. Seria muito curioso saber das discussões intelectuais, se é que elas haviam, entre o general e seu filho petista. Li que o general Oliva chegou a ser conselheiro militar do Lula. O livro não faz nenhuma crítica ao petismo. Nenhuma. E foi publicado em 2002, quando esse partido estava próximo de chegar à presidência da república pela primeira vez. Porém, todos já conheciam o poder destrutivo do PT, por suas gestões em prefeituras, como São Paulo, com a paraibana retirante Luiza Erundina e no governo do Rio Grande do Sul, com o indefectível Olívio Dutra.



Na análise geopolítica histórica da América Portuguesa, o general Oliva aponta para a relevância da bacia do Prata, como um enfoque que o Brasil precisou ter, para que não perdesse ascensão sobre essa região, considerando a influência dos demais países que tem esse país como sustento da sua vocação de poder, cito a Argentina, Uruguai e, menos, o Paraguai. Aqui a história completa nos oferece uma informação melhor: não é o Brasil um país da bacia do Prata, mas, São Paulo, pois desde o período dos Bandeirantes nós buscamos um intercâmbio com o vice-reino do Rio da Prata. Não era algo cabível falar em Brasil naquela altura. São Paulo existia e era reconhecido como um estado de per-si. O Brasil não. A ideia de um Brasil na bacia do Prata só faz sentido pós II reinado. Vejo que o problema da Cisplatina se deve também a isso, no fundo. O fim do bandeirismo fez com que as relações lusoamericanas com o Prata perdessem força. Lusoamericanas, leia-se Paulistas. Eram os Paulistas que tinham um excelente trato com os espanhóis e criollos. Se a América Portuguesa pretende se integrar ao Prata de verdade, precisa conceder autonomia para que São Paulo conduza soberanamente esse processo. Todas as bacias hidrográficas induzem à separação do Brasil. O general Oliva concordaria comigo. Os rios não permitem a integração regional, antes estabelecem divisas.

Essa longa permanência da influência politica dos militares poderia ser rastreada mais longe, mas, prefiro situá-la na Guerra do Paraguai. Este conflito foi a causa da verdadeira ruína do II Império. Sem a guerra, os militares não teriam obtido proeminência e destaque. E não teriam se irmanado com negros nas trincheiras. O sentimento de irmandade entre estes não teria se formado. Essa irmandade é um verdadeiro patriotismo de irmãos de arma. Sem esse cenário sentimental, a escravidão teria persistido mais ou os fazendeiros teriam tido mais forças para brigar pela manutenção do sistema escravista. O modelo econômico -- atrasado, aliás -- poderia ter persistido. Só São Paulo estava melhor preparado para enfrentar a necessidade de um novo modelo econômico, assentado na imigração e no trabalho assalariado, pois assim já vinha começando a fazer, considerando suas necessidades de mão de obra, frente à expansão da lavoura do café. A providência leva São Paulo sempre na vanguarda da transformação social. 

"Muitos fazendeiros, revoltados, expulsaram-nos das fazendas, Outros buscaram mantê-los pelo teto e pela comida. Outros pagaram-lhes algum salário como concessão. Na verdade, a maioria dos fazendeiros não estava preparada para a situação nova, tanto econômica quanto psicologicamente, à exceção da maioria dos fazendeiros paulistas, que, por seu governo, contratara italianos para a lavoura e já se acostumara com o pagamento da mão-de-obra rural." (pp.37)

Com a república, puderam os militares ocupar a presidência da república em várias ocasiões. A república, é preciso relembrar, nasceu como um golpe e uma ditadura militar. 1889, um golpe dado por Deodoro da Fonseca derrubou o decrépito imperador Bragança. Pós Deodoro, foi consolidada a república pelo alagoano Floriano Peixoto, o "marechal de ferro". Os militares, porém, sabem que apesar de serem uma constante no poder, ora ocupando ele diretamente por meio de cargos políticos, ora atuando nos bastidores, precisavam fornecer uma aparência de democracia, como o ocidente civilizado faz questão de cobrar do mundo. Foi a presidência passada aos fazendeiros, a elite econômica, que contou com a anuência dos militares para estar no poder. No fim, quem tem as armas nas mãos e tem o poder sobre a vida e a morte detém todo o poder possível, caso queira empregá-lo. Todos os demais poderes, econômico, midiático, judiciário, burocrático, é uma concessão da força bruta controlada. 

O estado brasileiro, especialmente, durante os períodos de ditadura, mas, é evidente, não só neles, soube operar psicologicamente, sobre a população por meio da comunicação de massas. Foi durante a ditadura de Vargas, com o DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda e com a televisão durante da ditadura militar que o estado fabricou os elementos básicos da identidade brasileira, a chamada brasilidade. O samba, o futebol, a cachaça, a mulata, a miscigenação, a integração nacional, a queima das bandeiras, a obrigação de símbolos nacionais de forma sistemática, não natural ou orgânica. O que intelectuais civis e militares pensaram sobre a formação e construção da identidade nacional brasileira, o estado executou com excelência. A ideia de unidade nacional, eu considero, é a suprema razão de ser das forças armadas brasileiras. 

Este livro do general Oliva é muito bom. No que se propõe a tratar de análise e propostas é factível e realista. Só não é realista ao ignorar o PT na história. Livro publicado em 2002, cita no final a Rodésia como possível parceiro internacional do Brasil. Talvez seja um apanhado de coisas escritas ao longo de sua carreira. Talvez seja só confusão. Não saberemos a resposta. Mas, ignorar o petismo tem explicação. Esse seria o primeiro general do petismo ou tivemos outros que eu ainda não conheci? Bom, relembremos que exista quem diga que o Lula é uma cria do Golbery para queimar o Brizola. Me parece que o Brizola cria nisso, mesmo que tenha sido vice na chapa do sapo barbudo, em 1998.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Curtas

Getúlio permaneceu no poder por 19 anos (1930-1945 e 1950-1954). O Lula pode encaminhar, na sequência, mais um mandato e fechar sua carreira com 16 anos de presidência. É claro que o Barba vai se comparar com o Caudilho. Na verdade, ele o imita. Mas, a bem da verdade, a Dilma do Getúlio, que foi Juscelino, foi muito mais competente. 

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"A coesão nacional é um fator inseparável da liderança, as maiorias e minorias nacionais se perderão nos desvãos sectários da polêmica estéril e a nação se desencontrará de seu destino. Sem liderança não haverá objetivo, não haverá convergência, não poderá haver força, potência." 

(General Carlos de Meira Mattos) (1975: 102) 

Hoje, General, felizmente, continuamos sem liderança, o que muito me alegra, pois, possibilita que os ânimos separatistas possam continuar em efervescência. No breve e não distante período em que tivemos um presidente militar, um "mito" nasceu e arrebatou o coração de um milhão de pessoas. É mister que não surjam novos mitos para o Brasil, antes que nasçam 27 mitos para as Pátrias Estaduais.

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'General J. B. Gordon at Gettysburg' by Don Troiani

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A Moóca tem um soft power imenso. Não me ocorre outro bairro paulistano que pareça emanar tanta poesia, talvez o Brás, que no fundo é a mesma coisa que a Moóca. Os Alcântaras Machado de hoje precisam cantar novos velhos bairros. Um Jabaquara, um Brooklin, um Planalto Paulista.

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De mais a mais, São Paulo é um mundo especial, zeloso e de boas obras para cronistas. Ou ainda é, enquanto os condomínios sem alma não forem reis totais da paisagem. A tristeza que é ver bairros, como a Vila Mariana, para citar só um exemplo, que se verticaliza não em terrenos vazios ou que outrora tenham sido ocupados por fábricas, mas, no lugar de várias casas e sobradinhos. Não é nostalgia. É estilo de cidade que está sendo feito. São Paulo adora o soterramento. Já foi demolida e reconstruída muitas vezes e assim permanece esse movimento. Mas, nada como o condomínio alterou tanto a realidade como hoje.

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Afora o tempo de criança, quando era passeio da escola pública ir ao cinema, fui poucas vezes ver algum filme. O último que vi foi o Coringa, no cine do Shopping Boa Vista. O Google me informa que isso foi em 2019. Dois anos antes, no cine do então recém inaugurado Shopping Morumbi Town, vi O destino de uma nação -- filme que achei ótimo. Voltando mais no tempo, fui em 2010, com a rapaziada da faculdade ver algum blockbuster no Shopping D. Ou seja, fui só três vezes no cinema nos últimos 16 anos. Li ontem que o Playarte do Ibirapuera será fechado. Eu mesmo nem lembrava que ali tinha cinema. As pessoas não querem mais ir ao cinema, com a facilidade das tvs enormes de LCD em casa, com o streaming e com o custo. O estacionamento é no mínimo vinte cruzeiros. Um refrigerante de máquina e uma pipoca murcha com corante cinquentinha. Fora o ingresso. É um passeio custoso. Exceto se você usar o espaço para namorar, não vejo sentido em ir ao cinema. E, na mesma linha do Apóstolo São Paulo, vou seguindo aqui sem ter razões de ir ao cinema. 

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Vi, ou li, o Olavo certa vez falar que ele misturava Aristóteles com Alborghetti. Apesar de ter sido influenciado por ele na formação intelectual (muito menos do que qualquer olavete por aí, eis o porque eu não me considero um olavete, ainda mais por ter sido um dos que ele espinafrou no Facebook alguma vez), creio que eu esteja enquadrado no mesmo estilo. É comum que eu cite um exemplo rebuscado e erudito na mesma frase em que cito um dito popular ou uma escrotidão do Programa do Ratinho. O popular de verdade é algo que não se pode de nós separar. É a alma dos velhos, é um passadismo, é um repositório de bom senso e choque perante a casta dos engomadinhos morais e estéticos. E aquele que se nega o direito de ser popular encolhe também o seu repertório, reduz a sua comunicação. Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas!










A longa permanência militar.

Existem alguns cenários que são permanentes na história política do Brasil. O patrimonialismo, como estudou Raymundo Faoro, é um deles. Outr...